domingo, 14 de janeiro de 2018

Posthuman Tantra: veja fotos de um dos ensaios para a performance no III Congresso de Filosofia da Cidade de Goiás

O Posthuman Tantra realizou ensaios para a performance que acontecerá dia 15 de janeiro de 2018, na abertura do  III Congresso de Filosofia da Cidade de Goiás, no CineTeatro. A performance incluirá novidades, como o teremim positrônico tocado por Léo Amante da Heresia, e o novo figurino de lobisomem criado por Luiz Fers para o Ciberpajé no ato V - Tema o Homem, Ame o Lobo. Veja algumas fotos de um dos ensaios realizados na Oca do Ciberpajé, em Goiânia, e tiradas por Luiz Fers & Léo Amante da Heresia.

 Ciberpajé e I Sacerdotisa Rose Franco

  Ciberpajé e I Sacerdotisa Rose Franco

Léo Amante da Heresia 

  Ciberpajé e I Sacerdotisa Rose Franco


   Ciberpajé 

  Ciberpajé 


 Ciberpajé, I Sacerdotisa Rose Franco e Luiz Fers



O Posthuman Tantra é uma banda musical performática criada em 2004 por Edgar Franco, o Ciberpajé. As performances são ambientadas em um universo ficcional transmídia chamado "Aurora Pós-Humana" – mundo tecnognóstico baseado na fusão entre DNA & silício, com novas criaturas que mixam humano, animal, vegetal e máquinas. Ao vivo o Posthuman Tantra baseia-se em apresentações multimídia, que contam com vídeos exclusivos feitos com artes de Edgar Franco, aplicações computacionais e ações artísticas exclusivas criadas por Franco em parceria com os integrantes do grupo de pesquisa CRIA_CIBER, coordenado por ele e ligado ao Programa de Pós-graduação em Arte e Cultura Visual da FAV/UFG. As performances do grupo envolvem fortes aspectos tecnognósticos e propõe aproximações entre transcendência e hipertecnologia através de uma ambientação baseada na ficção científica e contextualizada no universo ficcional transmídia da “Aurora Pós-humana”. 

Ao mesmo tempo, repudia a assepsia das imagens publicitárias que induzem ao consumo e à destruição da biosfera perpetrada pelas multinacionais auxiliadas pelas grandes agências publicitárias globais. Os atos das performances são encarados como “ciberpajelanças”, pois unem de maneira singular aspectos da cultura ancestral nativa das tribos brasileiras, sobretudo suas percepções transcendentes através da incorporação de totens míticos animais e vegetais nos rituais de cura e energização, às novas perspectivas pós-humanas abertas pela criação e incorporação de mundos digitais, cosmogonias computacionais possibilitadas pelo amplo universo das imagens numéricas e da hipermídia. O Ciberpajé da performance hibridiza simbolicamente o mundo das realidades vegetais  - acesso às cosmogonias míticas através do uso de enteôgenos -  com o das realidades cíbridas - criação de cosmogonias digitais - gerando um novo corpus transcendente. Aliando ao contexto da ciberpajelança aspectos tecnofetichistas amplificados com base na interconexão acelerada entre o ser humano e novas tecnologias como robótica, telemática, realidade virtual e transgenia. Propondo um deslocamento conceitual para um futuro vislumbrado onde a sexualidade envolve novos servomecanismos sexuais, híbridos humanimais transgênicos, inteligências artificiais sensuais, taras ancestrais e selvageria animal. A performance “Postbiotech Erotic Mantra”, realizada na abertura do III Congresso de Filosofia da Cidade de Goiás: Erotismo, Filosofia e Cidadania, envolve 5 atos: I - Tênue Esfera Azul, II – O Selvagem, III – Iniciação Sexual com um Robô Multifuncional, IV – Penetrando a Bioporta Virgem, e V – Tema o Homem, Ame o Lobo. 

Erotismo & Selvageria: Ciberpajé palestrará no III Congresso de Filosofia da Cidade de Goiás

Dia 16 de janeiro de 2018, às 19:00, no Cine Teatro São Joaquim, na cidade de Goiás, o Ciberpajé Edgar Franco ministrá a conferência: PERFORMANCE E VIDA: EROTISMO E SELVAGERIA.

A palestra versa sobre a experiência performática do artista transmídia Ciberpajé - também conhecido como Edgar Franco - na criação do universo ficcional transmidiático e magístico da “Aurora Pós-humana” e de seus desdobramentos poéticos em obras que envolvem múltiplos suportes e técnicas. Trata mais detidamente de um dos ideários de sua persona transmutada, a noção de selvageria e o resgate da condição animal do ser humano e de suas implicações diretas de reconexão com a natureza cósmica e com a biosfera de Gaia. A concepção de erotismo selvagem como o encontro profundo com o outro em total sintonia com o momento presente e do sexo como um ritual corporal intuitivo, fruitivo e instintivo que promove a conexão com a essência cósmica de cada ser. Esses ideais compõe o ritual performático “Post Biotech Erotic Mantra” realizado pelo grupo performático Posthuman Tantra na abertura do III Congresso de Filosofia da Cidade de Goiás: Erotismo, Filosofia e Cidadania.

Saiba mais sobre o evento aqui.

Ciberpajé & Flávia Provesi fotografados por Luiz Fers

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Vida, Ciência, Educação & Arte: Conheça a IV Sacerdotisa Danielle Barros nessa instigante entrevista a discentes da UFSB

Em entrevista concedida aos discentes da "Licenciatura Interdisciplinar em Linguagens e suas tecnologias" em trabalho para o componente curricular "Ensino de línguas através de HQs e charges" da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), a Drª Danielle Barros fala sobre Vida, Ciência, Educação, Arte e uso dos quadrinhos e fanzines no ensino, nesta entrevista instigante que agora disponibilizamos a todos aqui no blog. 
As dez perguntas foram elaboradas por Débora Campos, Edineiva Mendes, Fernanda Braz, Gabriela Boninsenha, João Paulo Valete, Leonardo Mantovani, Luciana Moreira e Roberta Santana, confira!

1- Danielle poderia fazer a gentileza de apresentar-se?

Meu nome é Danielle, sou artista, tenho 37 anos, nasci em Itabuna-BA e moro em Teixeira de Freitas. Sou a IV Sacerdotisa da Aurora Pós-Humana, isso significa que integro um universo mágicko de ficção científica criado pelo artista Edgar Franco (Ciberpajé) que ambienta as criações transmídia em quadrinhos, música eletrônica, performances artísticas, HQtrônicas, HQforismos, etc. Sou formada em biologia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no campus de Teixeira de Freitas; tenho duas especializações na área de ciências e saúde, mestrado em Ciências na área de Comunicação e Informação em Saúde (ICICT/Fiocruz), e doutorado em Ciências na área de Ensino de Biociências e Saúde (IOC/Fiocruz). Sou pesquisadora do Grupo de Pesquisa CRIA_CIBER (Criação e Ciberarte) na Linha de Pesquisa Arte, Linguagens Intermídia e Narrativas Híbridas da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás. Minha tese teve como foco de pesquisa o estudo sobre materiais educativos em ciências/saúde e quadrinhos e fanzines no âmbito da educação científica. Tenho atuado como arte educadora com quadrinhos e fanzines no ensino de biociências e saúde, escrevo poesias, faço ilustrações, HQforismos, quadrinhos e fanzines, com realização de oficinas criativas em todo país fomentando a arte não apenas como uma forma de aprendizado, mas como auto expressão do ser e cura interior, através do processo criativo.

Danielle Barros na I Sketch Con em São Paulo

2- Como e quando foi o primeiro contato que você teve com histórias em quadrinhos?

        Meu primeiro contato com quadrinhos se deu na infância, meu saudoso e amado pai Renato, tinha uma banca de jornal e revistas no Porto da Barra, em Salvador - BA, era um lugar bastante conhecido na cidade, e eu frequentava assiduamente, “ajudando-o” à minha maneira: mexendo nas figurinhas, nos álbuns, nos gibis, jornais, comendo doces, etc., de forma que sempre convivi com este universo de revistas, jornais, periódicos e histórias em quadrinhos. Posso dizer que minha pré-alfabetização foi a partir da leitura de gibis. Essa conexão era tão afetuosa e concreta que, lembro bem, eu adorava cada vez que abria uma revista e sentia o cheiro do papel e da tinta nos impressos! Além disso, quando eu era pequena, uma vez tentei “entrar numa história em quadrinhos” colocando meus pés e braços no papel na esperança de fazer parte da história, chorei muito ao não conseguir entrar, mas hoje em dia posso dizer que entrei sim ao mundo dos quadrinhos!
Desde criança sempre gostei de desenhar, esculpir, pintar, encenar, simular programas de rádio (gravava fitas), entrevistas, e, sobretudo sempre gostei de ler. Devo muito da minha verve artística a todo incentivo de minha mãe Ana e do meu pai. Eu tinha uma pasta onde guardava meus desenhos, e ainda pequena fiz minhas próprias revistas (meus primeiros fanzines, que só anos mais tarde pude conhecer o que era). 

Minhas criações, desenhos, cartas de quando era pequena

Sempre tive vontade de usar HQs na minha prática docente ou como tema de pesquisa, mas não sabia como. Meu primeiro trabalho acadêmico abordando quadrinhos e saúde foi a monografia de especialização em Ensino de Biociências e Saúde que representou um retorno ao ato criativo, em 2012, quando em conjunto com alunas/os de uma escola pública, foi elaborada uma história em quadrinhos (HQ) estilo mangá sobre tuberculose e um fôlder com dicas para criação de quadrinhos. A partir daí entrei na linha de pesquisa “Ciência e Arte” no LITEB – Laboratório de Inovações em Terapias, Ensino e Bioprodutos (IOC/Fiocruz) e segui essa linha de pesquisa durante o doutorado, orientada pelo prof. Dr. Paulo Roberto Vasconcellos-Silva e Drª Tania Araújo-Jorge.

                   HQ sobre tuberculose desenvolvida junto com os alunos e um folder sobre Como criar HQs

3- Você não sabia desenhar a princípio, correto? Poderia nos contar um pouco sobre como desenvolveu tão bem essa habilidade?

Na verdade eu não me lembro de uma época em que eu não soubesse desenhar. Sempre tive habilidade, mas de forma autodidata, pois ninguém nunca me ensinou. Criava intuitivamente sem conhecer técnicas ou noções de anatomia/perspectiva. Eu desenhava bastante na infância e era muito elogiada até, sobretudo pela minha pouca idade e por fazer desenhos bonitos, mas depois da morte da minha avó Delvita, a quem eu chamava “mainha”, uma pessoa muito importante pra mim (e outros acontecimentos marcantes que aconteceram na mesma época), gerou como consequência uma espécie de bloqueio. Eu nem havia me dado conta de tal bloqueio até retornar a desenhar, em 2013, com o incentivo do prof. Edgar Franco, que me apresentou o mundo dos quadrinhos autorais e dos fanzines como forma de autoexpressão artística. Encantei-me e aceitei o desafio de tentar voltar a desenhar. Nessa época de retomada meu desenho não era nada bonito e estava muito mais primitivo dos que o que eu fazia quando criança, mesmo assim não desanimei e continuei persistindo.

Eu com 6 anos em Salvador com minha prima Michele, exibindo meu desenho

Desenhos de 2013 e 2015, respectivamente

É curioso como o processo criativo me proporcionou uma conquista de auto estima, e mesmo com os desenhos que eu não considerava belos, me sentia orgulhosa e feliz em estar fazendo. Foi um processo muito importante e singular de resgate daquela menina criativa e auto descoberta nesse período. No final de 2013 comecei a fazer alguns rascunhos, e em 2014 surgiu minha primeira criação de personagem, a índia Sibilante, como expressão do meu alter ego. Desde então passei a criar de forma abundante, em diversos meios, suportes, tipos (quadrinhos, fanzines, ilustrações, capas de livros, etc) com experimentações e inovações que me surpreendem e alegram.

Minha ilustração estampou as pastas do II Entre ASPAS, Encontro de Pesquisadores em Arte Sequencial, 2015

4- Poderia nos falar um pouco sobre sua trajetória como leitora, bem como sua relação com a literatura, as artes e a educação?

Como falei na questão anterior, essa trajetória começou a partir do contato e da vivência na banca de revistas do meu pai em Salvador, com o incentivo da minha mãe para a leitura e criatividade nas mais diversas artes, e do meu interesse na área de comunicação e artes. Meu encantamento com a área do ensino (apesar dos desafios inerentes ao meio que desde o começo eu percebi) iniciou-se a partir dos bons professores e professoras que tive, que me fez admirar o ofício. Mesmo assim, não me via como professora, pois apesar da importância da profissão percebia que na sociedade em que vivemos há uma desvalorização e desrespeito para com os educadores. Depois de concluir a graduação, conheci a obra do educador Paulo Freire e fiquei impactada com suas ideias. Eu via na prática tudo aquilo que ele denunciava em seus livros: o ensino bancário e passivo nas aulas, o enfoque conteudista e memorizador, em que o professor era considerado o único ser dotado de conhecimento ao passo que os educandos são vistos como “tábulas rasas”. A partir de uma perspectiva humanista, dialógica, afetuosa, em que se considera o saber do educando, em que o processo de ensino-aprendizagem se constrói de forma conjunta, compartilhada, valorizando os saberes de cada um, e que também o indivíduo-cidadão é o agente de transformação de si mesmo e de sua realidade, vislumbrei uma possibilidade de ensino real, humano, alegre, complexo, criativo, e com isso, encantei-me de novo com a possibilidade de ser educadora, não apenas sobre os temas de minha formação (saúde, biologia ou ciências), mas de algo mais além, sobre a arte e a vida.
Infelizmente o ambiente da academia nem sempre é acolhedor, quando o discente de graduação chega ao mundo da universidade, cheio de expectativas e sonhos, acaba tendo suas aspirações minadas, e o que era uma semente a ser germinada, acaba se tornando um meio árido, sem perspectivas. Busco ser uma educadora como aqueles e aquelas incríveis e inspiradores/as professores/as que tive e ainda tenho ao longo da minha jornada, e assim ajudar a germinar as sementes que estão prontas a serem alimentadas e florescerem, seres humanos repletos de potencial que precisam encontrar um meio fértil para ser e encontrar seu caminho, de acordo com aquilo que amam fazer/criar.
Como mencionei, sempre gostei de desenhar e ler, só para citar alguns frutos da minha trajetória na área, além de dezenas de artigos e capítulos de livro publicados, sou co autora do livro “Processos Criativos de Quadrinhos Poético-filosóficos: A Revista Artlectos e Pós-humanos” publicado em 2015 pela editora Marca de Fantasia - Editora Ligada ao Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFPB. O livro analisa os processos criativos de algumas obras de Edgar Franco propondo uma comparação entre as semelhanças estéticas e conceituais das histórias em quadrinhos de Franco publicadas na Revista Artlectos e Pós-humanos. 

Foto divulgação feita pelo editor Henrique Magalhães

Outro destaque na área de quadrinhos e ensino é o livro “Arte Sequencial em Perspectiva Multidisciplinar” Editorado pela Associação Nacional de Pesquisadores em Arte Sequencial, em que tivemos artigos publicados como capítulos e para o qual fui convidada para elaborar a arte da capa com a colorização de Edgar Franco. 

Capa finalizada do Livro Arte Sequencial em Perspectiva Multidisciplinar

Capa do livro Arte Sequencial em Perspectiva Multidisciplinar. Link do livro: http://www.est.edu.br/downloads/pdfs/biblioteca/livros-digitais/ASPAS_LV2-Arte_Sequencial_em_perspectiva.pdf

Alguns Livros publicados em que participei

O outro livro que destaco na área de artes, é o Sketchbook Custom Danielle Barros, de minha autoria, lançado em 2017 pela Editora Criativo em São Paulo, sobre o qual falo mais detalhadamente na questão 6.

Foto tirada durante a II Sketch Con da Editora Criativo em São Paulo

Por fim destaco toda minha produção poética, desvinculada da vertente acadêmica, que envolve fanzines, revistas, feitas de forma artesanal, além de ilustrações, textos em aforismos e HQforismos que são verdadeiros tesouros expressivos da minha essência.

Escrever os textos, desenhar, escolher o papel e fitas, cortar e colar as capinhas, colar fitinhas douradas na moldura, costurar as páginas. Mergulhar no mundo dos fanzines é descobrir a arte que vive em cada um de nós.

5- HQs, charge e fanzines: com qual você se identifica mais ao trabalhar?

Veja bem, as histórias em quadrinhos são um tipo de linguagem/gênero imagético-textual em que seus elementos estão expressos de diversas formas, como a charge, o cartum, as tiras, a revista em quadrinhos, etc. Existem diversas outras manifestações midiáticas da linguagem, como as graphic novels e álbuns, os manuais didáticos, os story boards tanto em formas impressas como em outras formas experimentais como a chamada Vídeo BD, a HQ Radiofônica e a HQ ao Vivo, os HQforismos, além dos novos formatos digitais hipermídia para CD-ROM e Internet, como as HQtrônicas. Ou seja, a linguagem dos quadrinhos está presente em todos esses formatos citados.
Enquanto as histórias em quadrinhos são uma linguagem, o fanzine (ou zine) por sua vez, é outra coisa. Tratam-se de publicações independentes, amadoras e artesanais, impressas por técnicas diversas (fotocopiadoras, mimeógrafos, impressoras a laser, xilogravuras, dentre outras), de tiragem reduzida, em que o editor/autor/fanzineiro é responsável por todo processo editorial e de produção, que envolve desde a concepção, coleta de informação, geração de conteúdo, diagramação, ilustração, montagem, paginação, divulgação, distribuição, vendas e trocas. A produção gráfica do fanzine assemelha-se com a de um jornal ou revista, por agregar seus elementos, no entanto, é da natureza dos zines não ter como meta finalidades lucrativas, nem seguir regras editoriais alheias às escolhas de seu criador. Uma das principais características do zine é a liberdade de expressão, uma vez que, estando desvinculado dos ditames editoriais do mercado, os zines constituem-se como laboratórios de exploração e experimentação de diferentes linguagens e da criatividade.
O professor e editor Henrique Magalhães, um dos pioneiros dos fanzines no Brasil, didaticamente sistematizou os fanzines em grupos ou gêneros: ficção científica; música (inclui os zines punks); diversos (que inclui os fanzines de poesia, políticos, ecológicos, entre outros) e os zines de quadrinhos. No Brasil, a produção mais expressiva de fanzines é dedicada às histórias em quadrinhos.
O termo Fanzine foi criado pela junção do prefixo fan de fanatic com o sufixo zine de magazine, que significa magazine do fã, pessoas aficionadas por algum tema (ou seja, fãs em ficção científica, HQs, poesia, literatura, terror, erótico, entre outros). Portanto, fanzine é uma revista autoral e artesanal que pode abordar um ou mais assuntos/tema, podendo ou não usar a linguagem nos quadrinhos neles.
Dessa forma, não há limites para o fanzines, se você não sabe desenhar, você pode fazer um zine de arte-collage, de fotografia, ou um zine sobre literatura, sobre rock, sobre gastronomia ou sobre quadrinhos, mas a linguagem de quadrinhos pode ser usada em zines sobre qualquer tema, por exemplo: um fanzine sobre culinária em que as receitas são apresentadas ao longo de uma narrativa em quadrinhos! Há quem prefira fazer um zine apenas com textos, ou apenas com desenhos. Portanto, o fanzine é uma forma de publicação artesanal e independente, já o quadrinho é uma linguagem - é importante demarcar essa diferença que muitas vezes geram equívocos. Minha preferência? Criar livremente sem pensar se é HQ, ilustração, colagem...simplesmente criar e  experimentar, depois a gente vê o resultado! O que importa é criar sem limitações, assim surgem as inovações!
Um exemplo dessas experimentações despretensiosas que geraram inovações são os HQforismos. Trata-se de uma convergência do gênero textual “aforismo” com a linguagem das HQs. Eu e o pesquisador Edgar Franco nomeamos os HQforismos, mas eles já existiam. Na produção de Franco, por exemplo, eu notei uma recorrência de criações de artes de uma página em que havia a confluência do aforismo com a linguagem das HQs, em seguida notei essas criações provenientes das publicações de outros artistas.
McCloud (1995) adverte que as histórias em quadrinhos não são uma mera junção de palavras e imagens em redundância. Inerente à própria linguagem quadrinística, as imagens dos HQforismos não se prestam a “ilustrar” os aforismos, tampouco são redundantes, mas há uma relação de complementaridade e indissociabilidade. E foi a partir da criação livre e de experimentações que vimos surgir essa nova forma de expressão. Eis dois exemplos de minha autoria: 




Os HQforismos, mais especificamente os HQforismos do Ciberpajé, foram tema de matéria publicada na revista "Conhecimento Prático Literatura" em Edição Especial sobre Arte-Educação e HQs pela editora Escala em 2013. A matéria é de minha autoria e do prof. Edgar Franco.

Imagem da matéria “AFORISMOS & HISTÓRIAS EM QUADRINHOS: Os HQforismos do Ciberpajé” publicada na revista "Conhecimento Prático Literatura" (Numero 51 - Edição Especial Arte-Educação HQs, editora Escala).

Em 2016, durante o III Fórum Nacional de Pesquisadores em Arte Sequencial na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (FAV/UFG), um evento promovido pela Associação Nacional de Pesquisadores em Arte Sequencial (ASPAS) que teve como tema “A Arte dos Quadrinhos”, aconteceu a I Exposição de HQforismos, e ainda a II oficina de criação de HQforismos. Esse tema também foi tema de um projeto de extensão orientado por Edgar Franco e Natasha Hoshino, bolsista de iniciação científica, que mapeou HQforismos no país, realizou entrevistas a artistas e criou um blog para a difusão das criações com mais de 50 convidados, entre eles artistas reconhecidos do cenário da HQ brasileira e muitos outros jovens emergentes.

A abertura do III FNPAS começou com a exposição 'HQforismos' com curadoria do Edgar Franco, Cátia Ana Baldoino da Silva e Danielle Barros Fortuna.

Os HQforismos, embora comumente não sejam do gênero humor se aproximam de charges e cartuns pela síntese e composição. Portanto, criações em quadrinhos, tiras, charges e cartuns são relevantes ao promoverem a expressão de críticas socioculturais e filosóficas, e os HQforismos na mesma perspectiva, permitem instigar reflexões de tais aspectos da realidade através da experimentação quadrinhística. 

Visão geral da produção de HQforismos da oficina realizada na UFG.

Uma ilustração-charge de minha autoria ilustrou a matéria especial da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) sobre o dia do índio. A matéria, assinada por Vilma Reis e Bruno Dias, instiga a reflexão e denuncia a situação atual dos povos indígenas quanto a inacessibilidade de uma série de direitos, a expulsão de seus territórios e falta de acesso a saúde. A reportagem conta também com depoimentos de especialistas que desenvolvem pesquisas sobre a temática em questão. O texto completo no link: https://www.abrasco.org.br/site/2016/04/hoje-e-dia-do-indio-o-que-ha-para-comemorar/

Ilustração de Danielle Barros

Em síntese, identifico-me e estou aberta a todas as formas criativas envolvendo a linguagem dos quadrinhos ou não!

6- Recentemente você lançou o livro "Sketchbook Custom Danielle Barros". Poderia nos contar um pouco sobre ele? Como tem sido a recepção dos leitores?

Este livro foi um salto importante pra mim, marca uma trajetória que se desenvolve de forma independente (mas com importantes parcerias) e vem se tornando significativa. Reúne ilustrações compreendendo parte da minha produção de 2014 a 2017. O álbum tem acabamento com a qualidade elevada, 64 páginas, no tamanho 21x28 cm, papel off-set 150g, capas cartonadas com orelhas, e compõe uma coleção de artes visuais da Editora Criativo (São Paulo). O evento de lançamento foi promovido pela editora, a II Sketch Con, aconteceu dia 19 de novembro de 2017 e contou com 60 lançamentos com a presença de mais de 50 artistas, incluindo Ciberpajé Edgar Franco (que escreveu o texto de apresentação do meu livro e me apoiou incondicionalmente), Gazy Andraus, Rodrigo Vilela, Laudo Ferreira Jr, Julio Shimamoto, Pablo Piñar, Bira Dantas, entre outros, autografando livros e pôsteres, vendendo prints e artes originais, com um público estimado em 1500 pessoas no Jazz Restô e Burgers na Vila Mariana, em São Paulo/SP.
Nesse livro você encontra expressões do inconsciente, do universo cósmico e do microcosmo interior, da complementaridade dos opostos, as sombras e os nigredos, o êxtase e a luz de Ser em forma de ilustrações, HQforismos e  quadrinhos.
Minhas ilustrações abordam o sagrado e o feminino, tem como inspirações os/as artistas e pensadores: Ciberpajé Edgar Franco, Akiane Kramarik, Albert Aublet, Alejandro Jodorowsky, Alex Grey, Alfredo Rodriguez, Alice Mason, Alphonse Mucha, Amanda Sage, Autumn Skye ART, Boris Vallejo, Clarice Lispector, Drª Clarissa Pinkola Estes, Emily Balivet, Enya, Eva Ruiz, Fernando Pessoa, Gazy Andraus, Jessica Galbreth, Lucy Campbell, Manara, Mark Henson, Mozart Couto, Nata's Art, Osho, Pamela Matthews, Rik Lee Illustration, S. Sava, Sharon Irla, entre outros. Inspiro-me também na estética da art noveau, das iluminuras medievais, zetangle, era vitoriana, arte gótica, arte sacra, tenho ainda como influência o xamanismo, cultura celta, paganismo e tradições indígenas.

Arte da capa do livro

Eu com o livro durante o lançamento em São Paulo

A recepção tem sido boa e surpreendente, e em breve teremos um lançamento em Teixeira de Freitas, BA. O livro pode ser adquirido no site da Editora Criativo no link http://www.criativostore.com.br/art-books-e-sketchbooks/danielle-barros-sketchbook-custom.html ou se preferir o exemplar autografado, adquirindo diretamente comigo, no e-mail danbiologa@gmail.com

7- Sabemos que você realiza oficinas sobre o trabalho com HQs em sala de aula, como tem sido tais experiências? Você acredita que os professores da educação básica no Brasil são preparados para trabalhar com essa linguagem?

Essas experiências começaram em 2012 e já aconteceram cerca de 15 oficinas realizadas em estados como o Acre, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Bahia e Goiás. São transformadoras para mim, pois além de aprender com elas, conheço pessoas e lugares incríveis. Estar com o ser humano é sempre uma viagem instigante, e um mergulho em nosso auto conhecimento, pois em contato com o outro posso conhecer mais sobre mim mesma.
 Imagens de oficina realizada durante o doutorado

Em relação aos professores estarem preparados para trabalhar com essa linguagem, percebo um grande interesse por partes dos educadores em todos os lugares que estive e também na literatura científica isso é relatado. Porém faltam iniciativas voltadas à formação docente de forma continuada e que inclua artes e estratégias dialógicas para a atuação em sala de aula. E percebo que, por mais que exista “boa intenção” e interesse, muitos educadores, por falta de familiaridade com a linguagem dos quadrinhos, desconhecimento sobre seus elementos constitutivos, ou sua história, origem, ou seja, pela falta de contato com uma “cultura quadrinhística” seja ela do eixo comercial (mainstream), autoral e/ou underground, o educador acaba por utilizá-lo de forma passiva, bancária, acrítica e superficial em sala de aula, o que pouco contribui para um ensino significativo para os alunos.
Em sua história as HQs nunca foram unanimidade ao gosto do público e sofreram críticas contundentes ao longo de sua existência. Entretanto, recentemente houve uma gradativa inserção das HQs no âmbito educacional brasileiro, prova disso foi a recomendação para sua utilização como recurso didático-pedagógico em importantes iniciativas do governo brasileiro, como nos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) e no PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola). Apesar de tais recomendações, se um professor resolver utilizar quadrinhos em sala de aula vai se deparar com uma série de livros com “fórmulas prontas”, como se o uso de quadrinhos no ensino fosse algo trivial e raso. O educador Elydio Santos Neto (2011) com sabedoria alertou-nos que cada educador que pretender trabalhar com HQs em sala de aula deverá criar sua própria metodologia, de acordo com seus objetivos, levando em consideração as especificidades dos educandos, fatores culturais, sociais, entre outros, com planejamento adequado e sempre reavaliando suas práticas. 
Além disso, o docente deve ter familiaridade com a linguagem e percepção das possibilidades, de forma criativa, construtivista e não de forma instrumental e bancária. Segundo um levantamento (publicado em forma de capítulo de livro) que realizei durante minha pesquisa de doutorado (quem tiver interesse de ler a tese e todos os artigos publicados durante o doutorado, o download está disponível no link), a metodologia empregada por grande parte dos educadores atualmente é trabalhar com HQs já existentes. Os professores costumam pesquisar gibis que tratem de assuntos e temas relacionados ao conteúdo que desejam e os utilizam como meio para introduzir ou subsidiar a discussão do tema em questão. Então é comum vermos professores trabalhando com “Garfield”, “Calvin e Harold”, “Mafalda”, “Turma da Mônica”, assim como tiras e charges presentes no livro didático como “demonstração” de temas científicos, e notório “exercício de preencher balões”, que embora possam ser atividades proveitosas como recursos didáticos, se forem utilizadas de forma acrítica e sem o devido aprofundamento conceitual tornam-se ações de pouca relevância educativa. Já as iniciativas em que os educandos são colocados como criadores e protagonistas no processo criativo de quadrinhos, charges, tiras, ou fanzines são ações ainda incipientes na área do ensino, infelizmente.
Já me perguntaram uma vez: então a culpa é do professor? Claro que não. Se o professor tem interesse em buscar proporcionar uma aula mais interessante, dinâmica, criativa utilizando quadrinhos, ele vai montar a aula dentro das possibilidades e saberes que ele dispõe. Como eu disse, têm surgido muitas publicações sobre “quadrinhos e educação” o que é ótimo, pois mostra o quanto essas iniciativas estão crescendo e sendo descritas na literatura, porém tem 3 problemas aí (e digo como alguém que está “dos três lados da história”: como autora de artigos sobre o tema, como educadora e como aluna/criadora): 
1) Há muitos artigos com ares de “fórmulas prontas”, ditando passo a passo, mas com pouco detalhamento das ações e desconsiderando as especificidades e contextos que devem ser observados e explicitados aos educadores que desejam elaborar suas aulas ou projetos ; 
2) Os artigos presentes na literatura sobre o tema só contam o que “deu certo”, relatos com descrição dos “problemas” ou “fracassos” surgidos no processo, como: quando os alunos dizem não gostar de quadrinhos, aulas que não renderam criações, o tempo curto para desenvolvimento das aulas, falta de material para o educador ter ideias para elaborar aulas, falta de preparo do educador na condução do projeto/aula, ou quando, na avaliação, os alunos reprovaram o uso de HQ na aula (isso em geral acontece quando as HQs são usadas de forma passiva, sem que os alunos criem), etc., são raros, o que gera uma FALSA NOÇÃO de que trabalhar com HQ em sala de aula será sempre um sucesso.
Quando comecei nessa área tive DIVERSOS CONTRATEMPOS, mas quando lia os artigos existentes só me deparava com frases: “os alunos adoraram o uso de quadrinhos na aula” ou “a experiência foi rica e prazerosa, aprenderam brincando”, e eu me perguntava: “mas e os problemas? Só aconteceram comigo?”, diante disso eu pensava que, das duas, uma: Ou tudo dava certo com todo mundo e EU era A incompetente, ou os fracassos eram jogados para debaixo do tapete na hora em que os autores escreviam seus artigos! Bem, ao longo dos anos fui percebendo que as duas coisas acontecem, há de fato experiências exitosas, mas também há experiências que tem diversos desafios, mas que os mesmos não são compartilhados nos relatos das experiências (digo isso porque já conversei com diversos autores e autoras de artigos que me relataram terem omitido esses pontos de sua escrita acadêmica), o que é lamentável, pois no processo de pesquisa científica é preciso apresentar os resultados, sejam eles condizentes com as hipóteses iniciais ou que as negue, só assim podemos avançar e construir conhecimentos. É por isso que em minhas oficinas eu sou muito verdadeira e relato as vantagens e também os problemas em se utilizar quadrinhos e fanzines no ensino.
A questão 3) que também tem muita pertinência, diz respeito ao referencial teórico - muitas vezes insuficiente ou inadequado - que baliza as atividades dos educadores que decidem utilizar as HQs em uma perspectiva em que os alunos serão os criadores. Nesse caso meu destaque é que o professor elabore sua aula/planejamento atentando para a questão da AUTORALIDADE, para isso é essencial incluir tópicos teóricos sobre “processo criativo” e “quadrinhos autorais”. A maior parte das oficinas de HQ que assisti durante minha formação abordava e dava ênfase apenas aos quadrinhos comerciais e sequer citavam a linha de quadrinhos autorais. 
Eu como aluna, na época, não me identificava nem me via como quadrinhista fazendo HQs de super heróis, mangás, nem turminhas, então eu pensava que não haveria possibilidades pra mim. Até que um dia, numa palestra do prof. Edgar Franco em que ele mostrou o mundo das HQs poético-filosóficas, eu pensei: “nossa, então há essa possibilidade de criar com temas poéticos e existenciais?” – para quem lê essa minha indagação de outrora pode julgar-me infantil e ingênua, porém, como eu era uma leitora que havia abandonado a leituras das HQs ainda na infância, para mim, conhecer a possibilidade do mundo das HQs autorais foi revelador. Ademais, o que para nós que já atuamos na área parece ser redundante, para quem está começando (como eu estava em 2012), não é. Por isso, quando o educador montar suas aulas/oficinas é importante que ele cite não apenas a existência –já tão notória- das HQs comerciais, mas é fundamental abordar também o universo e a ampla produção das HQs undergrounds, dos fanzines, dos quadrinhos poético-filosóficos; assim os discentes poderão vislumbrar novas possibilidades de criação e experimentação artísticas!
Antes de concluir, gostaria de abrir um parêntesis nessa questão sobre as oficinas para mencionar algumas realizadas na UFSB. Uma delas contou com uma metodologia diferente das demais oficinas que eu realizei, nesta, a estratégia educativa contou com mediação da tecnologia e telepresença. A oficina foi realizada da Universidade Federal do Sul da Bahia e contou com a participação de cinco discentes (graduandas da UFSB) na modalidade presencial em Teixeira de Freitas e transmissão meta-presencial para outros campi da UFSB nos municípios de Itabuna-BA, Porto Seguro-BA e para uma docente conectada em Salvador-BA, com o total de mais de 50 participantes. Em cada campus havia a mediação das educadoras responsáveis por cada turma, do componente “Educação e Comunicação em Saúde”. Da oficina de 4 horas de duração, resultou a criação de material educativo – um fanzine de quadrinhos – elaborado por discentes do ensino superior sobre dengue, zika e chikungunya como uma forma de mediação de conhecimentos e debate sobre CTS na realidade local.

Imagens da transmissão da oficina semipresencialmente, no detalhe o ZikaZine

Imagens da transmissão da oficina semipresencialmente a outros polos da UFSB

Momento de planejamento e criação do material educativo pelas discentes

Páginas do zine Papo de Mosquito criado pelas discentes da UFSB

Foi uma experiência muito rica, e está descrita e analisada em um trabalho apresentado em congresso e publicado como artigo de livro digital, podendo ser encontrado no link: https://forumaspasgoiania.files.wordpress.com/2017/11/a-arte-dos-quadrinhos.pdf
 Em julho de 2017 fui convidada pelo prof. Marcus Matraca para desenvolver uma oficina sobre “Almanaques e materiais educativos” para o componente curricular “Análise de situações de saúde” na UFSB, em Teixeira de Freitas, BA. Os discentes criaram o “Almanaque de saúde” que foi lançado em setembro de 2017 ao final do componente curricular e contou com tiragem de 400 exemplares com distribuição voltada à população local.
Foto durante o lançamento com parte da turma que desenvolveu o Almanaque da saúde na UFSB

Além dessas, conduzo, junto com o prof. Jorge Fortuna, o projeto Biossegurança Laboratorial em Quadrinhos iniciado em 2014 em que também trabalhamos por oficinas criativas. O projeto teve apresentação de trabalho no III Encontro Nacional de Pesquisadores em Arte Sequencial, em 2017, onde abordamos sobre a primeira HQ da série, que trata da temática sobre o uso de jaleco de forma adequada, nos ambientes apropriados.

HQ sobre biossegurança laboratorial criada por discentes da UNEB

Fanzine BiocienSaúde, 32 páginas, reúne HQs de uma oficina realizada na UNEB

Durante o desenvolvimento da minha tese de doutorado foram desenvolvidas 8 oficinas em instituições públicas de ensino, que na soma de todas elas, envolveu mais de 60 participantes e a criação de cerca de 30 materiais entre fanzines, tiras, quadrinhos, etc. O que vale destacar no trabalho com oficinas é que os participantes (sejam eles discentes, técnicos, coordenadores de ensino/saúde ou educadores) é que são os criadores e protagonistas do processo.
Portanto, confio que o educador deve primeiro conhecer e mergulhar na leitura dos quadrinhos e fanzines, encantar-se, criar, buscar os referenciais teóricos e montar sua estratégia levando em consideração seu público e o interesse deles neste tema. A partir daí é ter a coragem e fazer, pois é preciso realizar para posteriormente avaliar os êxitos e onde acertar as lacunas.
Finalizo esta questão citando e agradecendo àqueles que há muitos anos já atuam na área de quadrinhos, fanzines e oficinas no ensino, primeiro a quem me apresentou a este mundo: o artista Edgar Franco (UFG); em seguida ao artista Gazy Andraus (UEMG), ao saudoso prof. Elydio Santos Neto (UFPB), ao prof Hylio Lagana (Ufscar), ao Alberto Souza (projeto Iffanzine/IffMacaé-RJ), à arte educadora Thina Curtis, à profª Regina Marteleto, ao prof. Diucênio Rangel, e ao prof. Francisco Caruso (projeto EduHQ/RJ) e muitos outros. Minha gratidão e sigamos criando e disseminando a arte autoral!

Participação na revista Gibio, projeto de extensão em divulgação científica com quadrinhos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Sorocaba/SP, com criações dos participantes da oficina-piloto na UNEB

8- Como você pensa que os gêneros quadrinísticos deveriam ser trabalhados em sala de aula? Qual sugestão daria para professores e estudantes que venham a trabalhar com essa linguagem?

Diante de tudo que falei, minha sugestão condiz com minha prática: Penso que os quadrinhos devem ser usados de forma em que os educandos sejam CRIADORES! Assim o aprendizado se dará por uma via em que haja um significado... Que se efetiva pela experiência, através do ato criativo! Peço licença para contar uma breve história: Em 2012 participei de uma Expedição científica da Fiocruz e o Plano Brasil sem Miséria (PBSM) conectado à Rede “Fiocruz para o Brasil sem Miséria” em Rio Branco – AC a qual participei promovendo a “Oficina HQ em sala de aula”, essa foi a primeira oficina que eu desenvolvi!
Durante as oficinas de quadrinhos realizadas no Acre eu sempre incentivava para que os alunos criassem e muitos deles diziam que não sabiam desenhar, que não sabiam o que escrever, etc. e eu desafiava: “Você consegue! Tente!”. Em um desses momentos, uma das crianças participantes me perguntou “E você, cria?”. Hesitei por um momento e respondi: “Não. Eu até desenhava antes, mas parei há algum tempo”. Então ela disse: “Mas como você nos desafia a criar se nem mesmo você faz?”.
Isso me fez pensar, e muito. Diante deste questionamento, lembrei-me de Paulo Freire (1996), quando instiga a reflexão sobre a “práxis”: “a teoria sem a prática vira 'verbalismo', assim como a prática sem teoria, vira ativismo, e quando se une a prática com a teoria tem-se a práxis, a ação criadora e modificadora da realidade”. Diante dessas considerações, perguntei-me, como poderia propor a criação de HQs e fanzines na prática educativa como ação transformadora do ser humano e da realidade concreta se nem eu mesma tinha coragem de tentar criar?

Notícia da oficina de quadrinhos durante a Expedição PBSM veiculada na página institucional em setembro 2012, Danielle Barros e participantes da oficina de quadrinhos na escola - Rio Branco (AC), site. Foto Ascom/Fiocruz

Em 2013 “tive coragem” e fiz meu primeiro fanzine “Abismos do Lobo”, depois veio Sibilante Grimoirezine Poético Filosófico (com tiragem de mais de 600 cópias), Presença Focada, Sagrado Feminizine, Criar Cura, entre muitos outros. Alguns deles tornaram-se foco de análises em trabalhos acadêmicos. Em 2016 criei os zines Lua Menina e Criar Cura. Lua Menina é um zine de tiragem limitada, com exemplares exclusivos numerados, com capas feitas à mão a partir da reutilização de papelão, inspirada nas obras da literatura cartonera e no movimento do “faça você mesmo” (do it yourself ou DIY), do mundo dos fanzines. MUITOS fanzines, outras publicações e oficinas surgiram depois deste ato de criação do meu primeiro zine.

Produção de zines

Foto com alguns fanzines de Danielle Barros

Então acho que quando o educador se coloca em uma perspectiva de eterno aprendiz e vivencia na prática aquilo que ele propõe aos outros, ele se torna um EXEMPLO e contagia a todos a criarem e a descobrirem sua arte. Não estou dizendo que todo educador deve “aprender a desenhar”, não se trata disso, até porque como eu disse anteriormente, se o educador optar em trabalhar com fanzines em sala de aula, no fanzine há possibilidades de abordagem de todo tipo de assunto, e não necessariamente envolverá desenhos ou HQs. Cabe a cada pessoa (seja educador ou educando) mergulhar em si mesmo e descobrir sua arte, resgatar aquela criança que ficou parada no meio do caminho, no momento em que cessou de criar para “se tornar adulto”, fazendo coisas que “adultos fazem”. Trata-se de um resgate de uma vida, adormecida, através da arte que todo ser humano tem dentro de si.
Em suma, minha sugestão para todos é: Crie! Através da experiência de criar você terá a vivência e poderá ser multiplicador daquilo que transformou você!

9 - Pelo que temos visto, existem muitos equívocos no uso dessa linguagem em sala de aula. A senhora também percebe esses equívocos? Se sim, quais apontaria como os mais graves? Quais seriam suas sugestões para corrigi-los?

Para mim o mais grave é a utilização de qualquer estratégia de ensino (seja quadrinhos ou outra linguagem) de forma passiva e superficial, não promovendo e viabilizando o sujeito ser criador e protagonista do processo de ensino-aprendizagem. Afinal, não basta citar Paulo Freire (por exemplo) no projeto político pedagógico institucional, e usar uma abordagem passiva e bancária perante os educandos, tem que PRATICAR o que se diz!
Vejo colegas acadêmicos fazendo seus projetos de mestrado e doutorado citando conceitos, metodologias dialógicas e compartilhadas de ensino e criação, mas na prática agem de forma prescritiva e colonizadora, aplicando seus projetos “de cima pra baixo”, em que os sujeitos da pesquisa ficam totalmente à margem do processo, enquanto que o fundamento teórico da pesquisa aponta para uma filosofia participativa. Uma verdadeira dissociação do discurso e da prática. É preciso haver coerência, ética e bom senso em todos os âmbitos da vida, concorda? A meu ver devemos ser honestos sempre, avaliar a realidade de cada contexto de ensino, consultar o interesse dos alunos sobre o uso dessa ou daquela linguagem e ir construindo de forma conjunta e intuitiva, aliada ao lastro de conhecimentos que o educador possui e continua construindo, pois o aprendizado é uma prática para toda a vida.

10 - Quais são os desafios ao trabalhar com esse tipo de arte? O que te motiva a continuar investindo nessa área?

Em primeiro lugar vejo muito “oba-oba” quando se fala em usar quadrinhos no ensino, como se fosse sinônimo de sucesso total com os alunos, como se fosse algo trivial ou como se fosse “bagunça”. Digo isso com base na MINHA EXPERIÊNCIA, obviamente que muitos pesquisadores e educadores que possam ler minha perspectiva apresentem outras visões distintas, o que é normal e sadio. Quadrinhos no ensino não é algo trivial, mas também não é de uma complexidade imensa. Quando eu denuncio a banalização das HQs no ensino, à primeira vista pode parecer que estou sendo contra a sua apropriação, mas na verdade é justamente O OPOSTO! A questão é que o meu engajamento para o uso dos quadrinhos (assim como o dos fanzines) no ensino se efetive de forma CRÍTICA, CRIATIVA, LIVRE, ALEGRE, com conhecimento sobre o seu surgimento, de seu contexto, de sua essência. Por exemplo, é de SUMA IMPORTÂNCIA que o educando/educador saiba que os fanzines surgiram como mídia alternativa que se popularizou durante o movimento punk na década de 1970, como forma de veiculação de informações sobre ideologia, literatura, moda, música, etc., tornando-se um espaço importante de autoexpressão e contestação ao sistema. O fanzines vem da filosofia do FAÇA VOCÊ MESMO, ou seja, da autoria, do protagonismo.
Os quadrinhos, por sua vez, são publicações amplamente conhecidas, os mais visibilizados, lamentavelmente são os do circuito comercial: os super-heróis, as turminhas etc, mas existe um MUNDO IMENSO com muitas outras expressões quadrinhísticas com perspectivas autorais, artísticas e undergrounds que são de uma riqueza imensurável! As HQs de autor, por exemplo, são marcadas por uma proposta mais voltada à expressão artística do ideário estético e reflexivo de seus autores do que submetidas a atender demandas de mercado.
No âmbito acadêmico é de suma importância se conhecer as origens, o contexto histórico, pioneiros/as, principais obras de determinado assunto que se estuda. Na área de quadrinhos e fanzines não é diferente.
Os quadrinhos possuem uma linguagem própria, é uma forma de arte. Os fanzines também são consideramos uma forma de expressão artística de seus autores. O uso de tais artefatos no ensino devem respeitar a complexidade inerente a cada um deles, resguardando a liberdade criativa de quem os elabora.
Com isso, creio ser pertinente ressaltar que os quadrinhos e fanzines não têm a atribuição de atuar como um meio de divulgação científica, ou de “ferramenta educacional” embora eventualmente isso seja verificado. Sobre isso o prof. Elydio Santos-Neto (2011) nos disse que é de suma importância que não se faça uma “didatização” dos quadrinhos no âmbito do ensino. Como uma participante sabiamente disse durante uma oficina acerca dos materiais educativos que são elaborados em forma de quadrinhos pelos órgãos institucionais:

As pessoas que fazem materiais educativos em forma de quadrinhos acham que a gente é bobo. Pega aquele textão grande e chato de ler e simplesmente coloca-os nos balões, com a falsa ideia de que ‘quadrinhos todo mundo gosta e é gostoso de ler’, mas desse jeito fica muito chato! Para fazer quadrinhos sobre saúde tem que ter trama, história! E não pegar aqueles textos enormes que eles fazem no fôlder e transpor para uma HQ. Não adianta nada isso. Até quem gosta de HQ e vê uma coisa dessa não se interessa! (participante C)

Prof. Elydio também alertou para que o uso dessas linguagens não fosse feita de forma rasa ou como forma de “distração”, para tornar o ensino mais “leve”, ou para “passar o tempo”, mas que, pelo contrário, que se tenha “clareza de objetivos” para que o uso de HQs estabeleça relações com pontos de estudos e seja pertinente. Sobre esta questão corrobora a fala de uma das participantes de uma oficina que realizei:

Uma professora minha no ensino médio "jogou pra mim”: “- Faça uma história em quadrinhos!”, então pensei “oba desenho!”, não entendia o que estava fazendo, era algo assim...mecânico, sabe? Mas era uma bagunça e todos gostavam, mas aqui eu vejo tão diferente... (participante D)

Então meu apelo e cuidado ao propor essas estratégias no ensino é para que se faça o uso de forma crítica, aprofundada, planejada e assim possa se promover, de fato, uma aprendizagem com significado, e aproveitando as potencialidades que essas artes nos oferecem.
Sobre a outra questão, o desafio de se trabalhar com arte, se o artista precisar viver dela, fatalmente acabará maculando seu processo criativo. Porque quando você cria para atender uma demanda de mercado, o “cliente”’ vai querer opinar, criticar, encomendar, desrespeitando a obra e a criação genuína do criador. Se o artista arrefecer e buscar atender a nichos e demandas de vendas, enquadrando-se a essas demandas prévias, terá sua liberdade criativa cerceada e sua arte vai morrer.
Por isso uma alternativa que eu encontrei foi buscar diversas formas de renda e quando vendo alguma arte que criei só faço como “pronta entrega”, porque assim a pessoa vai adquirir algo que EU FIZ de forma livre. Se a pessoa quiser encomendar algo que eu não quero fazer, que não saiu da minha criatividade, mesmo me pagando bem, eu não faço.
Explicar isso nas aulas aos alunos é também de suma importância - e tem tudo a ver com a filosofia dos fanzines e das HQs autorais-, que é a de manter a arte imaculada de censuras, de demandas, de influências de mercado; sendo fiel à mensagem essencial, à ética do artista, à sua expressão autoral pura e sem limitações.
Ao fazer o que amo tudo flui, surgem os convites de criações, apresentações em eventos, de lançamentos, novas publicações, etc, como mostro nas imagens a seguir:

Apresentando minha trajetória no mundo dos zines e HQs e a inserção destes na pesquisa de doutorado em Ensino de Biociências e Saúde na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no 1º Encontro Lady’s Comics: Transgredindo a representação feminina nos quadrinhos.

Depois do fanzines, criei a revista Sibilante, que foi escolhida para compor as mesas oficiais de lançamento durante o Festival Internacional de Quadrinhos de 2015, em Belo Horizonte (MG).

Lançamento da revista Sibilante no FIQ - Festival Internacional de Quadrinhos em  2015

Meus zines estão presentes em mais de 15 fanzinotecas, destas 10 brasileiras e em 5 no exterior (Portugal, Espanha, Amsterdã, Itália e França), entre elas, na maior fanzinoteca do mundo, La Fanzinothèque de Poitiers, na França.

Fanzines da Aurora Pós Humana no acervo e catálogo da Fanzinothèque de Poitiers (França)

Fanzines da Aurora Pós Humana no acervo e catálogo da Fanzinoteca d'Italia e no catálogo

O ZineFest PT selecionou através de curadoria fanzines para participar da exposição que aconteceu de novembro a dezembro de 2015 no Centro Comercial de Cedofeita, Porto, Portugal

Continuo investindo na arte porque assim como aprendi com os artistas Edgar Franco, Alejandro Jodorowsky, e Marina Abramovic, a ARTE É UMA FORMA DE AUTOCURA, nas palavras de Edgar Franco “o processo criativo é um processo curativo”. Então enquanto eu crio, transformo a mim mesma, me conheço mais e me torno alguém melhor, alguém que amplia o amor próprio, alguém que se torna mais feliz, por criar, independente da repercussão dessas criações. Além disso, quando desenvolvo as oficinas sinto que dissemino meu amor pelos quadrinhos e fanzines aos outros, instigo para que cada pessoa descubra-se criativa, o que tem gerado multiplicadores. Isso é revigorante! Coisas que não tem preço financeiro, mas tem um valor inestimável: Inspirar a vida das pessoas numa energia cíclica cheia de energia e amor.

Deixo meus contatos para quem quiser trocar ideias, criar, propor oficinas, etc:

Blog “A Arte da IV Sacerdotisa”: https://ivsacerdotisa.blogspot.com/
Meu contato de email: danbiologa@gmail.com

Uma das discentes mandou a seguinte mensagem para Danielle:

"(...) Primeiramente, quero agradecer por você ter compartilhado um pouquinho de sua trajetória conosco. Li e reli a entrevista algumas vezes, quão admirável você é! Fiquei fascinada com, toda a sua trajetória, responsabilidade e seu conhecimento de mundo. Vc é uma artista completa, daquelas que nos abrem as portas do mundo. Que nos fazem enxergar o quão bom é encontrar num artista, um ser HUMANO. Que nos fazem acreditar que tudo é possível e que os sonhos são alcançáveis. Dani, eu adorei cada linha da sua entrevista e queria muito q outras pessoas tivessem a mesma oportunidade. 
(...) Parabéns, por colocar o seu talento visível para que mais pessoas cresçam. Muito obrigada, pelo aprendizado!" (Débora)


Agradeço imensamente a oportunidade de poder falar sobre minha trajetória criativa a todos vocês. Através da entrevista pude refletir sobre o que tenho feito! 
Coloco-me à disposição para futuras criações e parcerias! Agradeço ao Ciberpajé pelo espaço para publicação da entrevista em seu blog! (IV Sacerdotisa)