segunda-feira, 16 de junho de 2014

Entrevista com o Ciberpajé: Viagem Psiconáutica com Utilização de Cogumelos (Psilocybe Cubensis) e Processos criativos de Histórias em Quadrinhos Poético Filosóficas

No dia 11 de fevereiro de 2014, Edgar Franco – o Ciberpajé, artista transmídia, pós-doutor em arte e tecnociência pela UnB, doutor em artes pela USP, mestre em Multimeios pela Unicamp e arquiteto pela UnB - e Matheus Moura – quadrinista, editor de quadrinhos e mestre em Arte e Cultura Visual pela UFG - realizaram um experimento de viagem psiconáutica, na oca do Ciberpajé, em Goiânia. O relato e desdobramentos desta experiência serão abordados nesta entrevista.


(Ciberpajé fotografado por Rafael Happke em performance do Posthuman Tantra na UFSM)


Antes de iniciar a entrevista, abro com um aforismo postado pelo Ciberpajé em sua rede social no dia seguinte à experiência, que traz uma tentativa de descrição dos sentimentos que transbordavam visceralmente de seu ser. Antes de postar, Edgar Franco me disse: “Fortemente impactado pela experiência de ontem. Não esperava que aconteceria algo assim. Foi incrível e aterrador”; e postou o que segue:

Sou tão inocente em minha petulância de achar que conheço algo. Eu achava que conhecia as plantas, sabia o que elas são. Eu aprendi algo de biologia, plantei, achei flores belas e frutos saborosos, mas até ontem eu não conhecia absolutamente nada de uma planta, era um completo ignorante sobre elas. Angiospermas, gimnospermas, esporos, sementes, polinização, tudo isso me faz rir agora, as categorizações e as caixas. Mas ontem eu chorei, chorei de tristeza e de êxtase. Ontem um velho e imponente coqueiro do jardim conversou comigo, permitiu-me entrar em sua essência, vislumbrar as ranhuras e os ferimentos de seu tronco, tão marcado. Eu senti dentro de mim toda a sua luta silenciosa e solitária para resistir ao vento, em silêncio, eu senti o êxtase de sua conexão com a terra e a história ancestral da vida contada em cada microssulco de sua casca - inscrições de uma escrita cósmica que eu consegui desvendar naquele instante. Eu senti o vento e a chuva abraçado ao coqueiro, ou melhor, amalgamado ao coqueiro. Eu sou o coqueiro, sua impetuosidade viril e fálica, seu silêncio universal que grita. Ao saber mais sobre o coqueiro, soube menos sobre mim mesmo. E quando eu o abraçava e tornava-nos unos, outra planta me tocou e me falou que eu jamais havia olhado para ela. Ela disse a verdade, sempre ali imperceptível para o meu olhar cotidiano enviesado e viciado pela percepção embotada daquilo que passei a acreditar ser a realidade ordinária. Chorei de tristeza por mim, não por elas, de descobrir estupefato como sou um mistério, e chorei de alegria por finalmente conhecer um pouco o que são esses seres mágicos, os vegetais. Ah como a linguagem é limitada, estou relendo isso aqui e não consegui expressar nem um milésimo do que senti. Ontem visitei tantos lugares, vi galáxias perdidas, vi seres maravilhosos e aterrorizantes. Quem sou eu?”
(Ciberpajé)

Edgar Franco é artista transmídia, professor doutor que se declarou Ciberpajé em seu aniversário de 40 anos, através de um método de transmutação e renascimento inventados por ele tendo como base seu universo ficcional da “Aurora Pós-humana”. Na perspectiva de suas concepções poéticas, Franco é um ser pós-humano e esta experiência integra uma pesquisa independente sua e de Matheus Moura sobre processos criativos de histórias em quadrinhos sob efeito de enteôgenos, as chamadas “plantas de poder”, vulgarmente conhecidas como plantas psicoativas, ou alucinógenas. A experiência foi previamente combinada e estruturada entre Matheus Moura e Edgar Franco, visando à criação de uma história em quadrinhos em parceria criativa entre os dois durante a viagem psiconáutica, realizada com a ingestão de 14 cogumelos Psilocybe Cubensis. Franco já havia realizado outras experiências utilizando esse cogumelo, na verdade um fungo e não uma planta, e criado HQs, uma delas foi publicada na sua revista Artlectos e Pós-humanos # 7 (Editora Marca de Fantasia, 2013), mas essa foi a primeira vez que realizou parcerias criativas durante a experiência.

Edgar Franco, no dia seguinte à experiência, foi contatado por mim, Danielle Barros - IV Sacerdotisa da Aurora Pós-humana, pesquisadora e entusiasta de sua obra – e ele estava ávido por relatá-la. Entusiasmado em falar, o pensamento e as lembranças viajavam mais rápido do que Franco conseguia escrever. Esta entrevista, realizada pelo chat de uma rede social, mantém o formato de conversa informal. Ela permitirá ao leitor viajar e mergulhar um pouco nessa experiência incrível do Ciberpajé, suas percepções, criações e visões, de outros mundos e dimensões que visitou.

DANIELLE BARROS (DB): Como surgiu a ideia de realizar essa “viagem psiconáutica”? Qual era a busca de vocês? Como foram os preparativos? Conte-nos o começo dessa experiência para nos situar.

EDGAR FRANCO (EF): A ideia era criar uma HQ durante a experiência, ou seja, experimentar processos criativos sob o efeito da substância psilocibina encontrada nos cogumelos Psilocybe Cubensis. A princípio, Matheus Moura, desejou criar ambiências mais complexas e dar um direcionamento à experiência, como por exemplo, propondo um tema “básico” para as criações. No entanto, discordei e propus que essa primeira experiência fosse o mais livre possível. Então organizamos o espaço, selecionamos belas músicas ligadas para nós a esse universo do transe: Anathema, Faun, Omnia, Phuture Primitive, Shigurui, The Moon & Night Spirit e Merkaba, entre outras. Separei canetas que uso para desenho, lápis de cor, uma prancheta de mão e papel. Colocamos dois colchões no chão da área de serviço da oca do Ciberpajé, posicionados para a visão do quintal da casa com muitas árvores. Curiosamente, minha esposa Rose - a I Sacerdotisa da Aurora Pós-humana - sugeriu a Matheus para se acomodar na rede que temos na área de serviço e ele gostou da ideia e passou 90% do tempo da experiência dentro dela.

Bem, depois desses preparativos iniciais, Rose nos deixou a sós e saiu de casa. Então tomamos a “mistura mágica”, ela foi feita utilizando 13 cogumelos desidratados que tinham sido cultivados por Matheus Moura, e 1 cogumelo desidratado cultivado por meus pais e por Anésio Neto, e suco de uva integral - tudo batido no liquidificador e dividido em duas porções iguais. Por volta de 3 horas da tarde bebemos a poção, que pela cor lembrou Matheus Moura da poção mágica de Asterix. Deixamos a música ligada no random com todas as bandas escolhidas - o que foi uma ideia sensacional, pois os climas sonoros mudavam a todo instante auxiliando a produzir novas percepções e visões. Matheus colocou um incenso pra queimar. E nos deitamos, ele na rede eu no colchão no chão - eu sempre de olhos abertos, vislumbrando o quintal em parte do tempo, a parede do fundo em outros momentos e também o teto. Em todos esses pontos focais tive visões transcendentes inexplicáveis!

DB: Como eram essas visões/sensações?
EF: Vivenciei visões intensas durante toda a experiência, vou relatar algumas delas: Inicialmente vi nas folhas do abacateiro do quintal formar-se uma espécie de velho sábio ancestral com longa barba que se movia ao vento, olhar nervoso e fixo em mim. Depois essa imagem transformou-se na de um LOBO enorme, só a cabeça do lobo na verdade, com orelhas pontudas e muito longas, e de lobo ele foi mutando-se em muitas criaturas: macaco, cão, um louva deus e então um rato, um coelho. No teto, que tem telhas onduladas e com manchas, eu vi inicialmente a pele de múltiplas serpentes que começaram a dançar e a enroscarem-se! Detalhe: Matheus também viu serpentes ao olhar para o teto em um momento! Mas depois das serpentes, as imagens do teto formaram uma espécie de “cosmos de luz azulada” e o teto em si sumiu, e aí vi milhões, talvez bilhões de criaturas caminhando por uma longa estrada, por uma paisagem psicodélica, colorida viva e pulsante. Era como um grande “êxodo” e elas seguiam em direção ao horizonte, o céu era azul brilhante, e tinha dezenas de planetas coloridos de alaranjado, vermelho e cinza.
Mas as visões mais impressionantes das duas primeiras horas da experiência aconteceram na parede do fundo da área de serviço, que têm umas manchas de carvão deixadas pela churrasqueira do antigo dono dessa casa. Ali foi um êxtase! A parede é escura com essas manchas, então eu vi o universo, muitas galáxias e supernovas, mas a visão mais impressionante foi de uma exuberante e grande mãe cósmica!
Essa mãe cósmica parecia feita de estrelas, seu corpo tridimensional brilhava com muitos pontos luminosos e ela era escura como o negro do cosmos. Ela tinha uma cabeça altiva, olhos grandes e centenas ou milhares de grandes seios que iam descendo por seu corpo “serpentálico”, até sumir em perspectiva no universo. Num momento vislumbrei algo que pareceu uma vagina enorme entre os seios, mas sumiu, e tinham coisas que pareciam pequenas NAVES espaciais, em formato de charutos, que ficavam circulando a mãe e tocando o bico de seus seios. Vislumbrei essa imagem pelo que me pareceram horas! Mas penso que na realidade foram uns 15 minutos. Até tirei fotos da MANCHA (figura 1) que se tornou essa mãe cósmica! (Nota durante a revisão: Dias depois me deparei com a figura da deusa pagã “Diana de Éfeso” e fiquei estupefato com a sua semelhança com o ser que vi durante a experiência).
Figura 1 – Foto de Edgar Franco de mancha na parede onde visualizou a “Mãe Cósmica”.

Nesse momento, Matheus levantou-se da rede e veio me falar da sensação intensa de calor que sentia e que estava experienciando dentro da rede, ele suava muito e sentia algo como se estivesse passando por uma “pajelança”, com aura de cura. Ele relatou que parecia que a rede sugava toda a luz e energia do sol. Eu falei da visão da mãe cósmica para ele, então as duas imagens se chocaram: ele falando do sol (princípio masculino) e eu da mãe universal (princípio feminino). Peguei o papel e comecei a desenhar. Faço aqui um parêntesis: o primeiro exercício criativo da viagem não foi este, foi o de desenhar após ler uma poesia escrita por você, Danielle Barros, a IV Sacerdotisa, mas pelo fluxo de lembranças irei continuar a relatar este, e depois relato esse da sua poesia. 
Continuando, desviei o olhar de novo para a mancha na parede e a “mãe cósmica” estava lá! Do mesmo jeito, mexendo-se lentamente e sensualmente! Pensei que a imagem sumiria, mas não! Mesmo com toda a dificuldade do impacto da experiência naquele momento, comecei a desenhá-la como podia, sem me preocupar com a qualidade plástica do desenho. Matheus ficou de pé, me observando. Ele viu o desenho nascendo e lhe pedi que dissesse algo, e então recitou a frase: “Lágrimas, lágrimas por todos os poros”. 
Essa frase abriu a parte textual da HQ. Matheus observou que o desenho da mãe criava uma conexão com minha perna no ângulo que ele estava e brincou com isso, para ele o desenho e meu corpo eram uma coisa só, ele tentou fotografar, mas disse que a máquina não captou nada! (risos). Então tirei a primeira folha e comecei a desenhar o meu pé e joelho, e surgiu um desenho infinito, pois representei “desenho desenhando desenho” e assim por diante. Mais tarde, ao fim da experiência, ao reverem o desenho, minha esposa e Matheus disseram que o desenho não parecia ser meu! Em volta do pé maior eu desenhei um circulo induzido por uma imagem que pareceu vir do fundo do papel. Pedi a Matheus que dissesse algo para o texto da página, ele se sentiu pressionado, e incomodado, e a única coisa que disse foi: "Ao Sol". Então escrevi “AO SOL” na página e mostrei para ele. Ele viu, me entregou e começou a falar sobre o sol, o sol como deus, como grande fonte da vida, aproveitei a deixa e escrevi uma frase solta das que ele disse em outra página: "O Sol como a real Divindade". 
E a partir dessa frase lembrei-me dele falar da rede como “atratora de luz”, e comecei a desenhar a rede que virou uma VAGEM com um sol ao fundo, a rede vagem viva, um desenho simples, mas com certa força poética. Matheus viu o desenho, se desinteressou do processo criativo, absorto pela experiência, continuou de pé e foi olhar o quintal mais de perto. Então eu comecei outro desenho. Esse quarto desenho, Rose e Matheus, disseram mais tarde não ser meu, e nem eu reconheci-me nele! Matheus assistiu o começo de seu surgimento no papel. Em minha visão apareciam linhas brilhantes no fundo da folha branca e eu simplesmente seguia essas linhas e desenhava sobre elas. Matheus viu o começo do desenho e falou: “- Um Dragão!”, depois ele saiu e foi deitar-se na rede, não se importava mais com arte ou processo criativo, a experiência estava impactante demais. Terminei o desenho como pude e escrevi a partir do que Matheus disse: "O Sol é um dragão, um dragão, um dr...". Coloquei as quatro páginas da HQ à minha frente no colchão (Figura 2), tirei uma foto e voltei a me deitar para incrivelmente viver momentos ainda mais intensos. Mas nessa fase, entre as 17h30min (acho) e às 19h30min seria impossível desenhar algo!
Figura 2 - As 4 páginas da HQ “sem título” finalizada, sobre o colchão na área de serviço da Oca do Ciberpajé, em Goiânia. (Foto de Edgar Franco)


DB: DR é o que? Neste desenho você utilizou pincel?

EF: DR é o começo da palavra “DR”agão, eu fui aumentando a letra e saiu da página! Não usei o pincel, eu tentei usá-lo no nosso desenho da poesia, mas a coordenação com ele não estava boa, então optei pela caneta nanquim de ponta fina. Usei-a no resto da experiência, foi uma opção consciente para conseguir melhores resultados.

DB: Vi que vocês conseguiram criar a HQ nessa viagem psiconáutica. Matheus tinha levado algum texto previamente escrito? Conte-nos mais como pensaram esse processo “método-louco-intuito-criativo”?

EF: Sim, como você percebeu, consegui realizar com Matheus uma HQ! Mas confesso que foi complicado. Inclusive, como já ressaltei Matheus e Rose acharam que as páginas finais nem parecem que fui eu quem desenhou. Fizemos algumas fotos, tem uma em que apareço desenhando a primeira página (Figura 3), tentando com pouquíssima coordenação desenhar a mãe cósmica que vi na parede, essa fêmea descomunal de seios enormes, dezenas de seios em que espaçonaves vinham tocar os bicos. Ela se mexia lentamente e sensualmente. O desenho, ele é um arremedo, foi o que consegui fazer naquele momento. Mas foi importante como parte da experiência, como um registro atávico do momento em que eu vivia aquilo. Eu desenhava e Matheus, com muito esforço, - pois para ele foi mais difícil - ditava o texto. Ficamos na área que dá vista para o quintal, Matheus na rede e eu no chão. Foi nesse ambiente que a HQ nasceu. Mais tarde eu fui para o jardim e fiquei lá por um longo tempo. Matheus ficou quase todo o tempo na rede e se levantou algumas vezes pra falarmos, mas ele ficou de olhos fechados a maior parte do tempo, e eu de olhos abertos.

Figura 3 – Edgar Franco desenhando a primeira página da HQ “sem título”. (Foto de Matheus Mora).

DB: Matheus também desenhou?

EF: Não, mal conseguiu balbuciar algumas palavras para o roteiro. A experiência foi deveras impactante para ele, no começo sentiu forte emoção e vontade de chorar. Já eu, que nunca tinha chorado, no final chorei como uma criança. Minha esposa quando chegou se assustou; pois eu estava chorando copiosamente e tentei explicá-la sobre minha vivência com o coqueiro do jardim, ela não entendeu nada. Ela preferiu estar fora durante o período da experiência para deixar-nos mais a vontade. O final de minha viagem foi muito emocional, como o início da de Matheus. Os fluxos dinâmicos enteogênicos deixaram-me em um estado hipersensível e me implodiram. Inicialmente tive medo, pois vi que conheço ainda pouco de mim, mesmo diante de minha ancestralidade, mas depois vivi um êxtase profundo. Chorei de medo, depois de tristeza pelo desconhecimento de mim mesmo, depois de ÊXTASE pelo maravilhamento. Chorei muito. Mas isso foi só no final, eram 20h00min.

DB: A HQ foi feita dentro da proposta imaginada? Ou a intenção primeira não era primordialmente a produção artística em si e sim a experiência transcendente como um todo?

EF: Bem, quando você se dispõe a realizar uma experiência dessa natureza, objetivando CRIAR uma HQ, mas já tendo vivido experiências anteriores assim, você sabe que no final isso (criar uma HQ) terá pouca importância dentro de todo o processo de mergulho no abismo. Mas fizemos a HQ!

Depois de tudo que sentiu e viveu na experiência, Matheus, altamente impactado e confuso, disse-me: “- Deu vontade de desistir de tudo, do doutorado. Isso não faz sentido!” E eu o compreendi perfeitamente! Após viver um drama cósmico, ser obrigado a citar idiotas arcaicos e travados para analisar algo que foge completamente ao inocente método científico é como querer ensinar pedras a dançarem. O impacto é profundo. Uma experiência assim pode ser perigosa para aqueles que tiverem um coração duro, maldoso, ou frustrado. No entanto conversei com Matheus sobre a importância de unirmos a realidade vegetal à realidade validada, e como, na perspectiva da pesquisa acadêmica, podemos legitimar a importância e impacto dessas experiências no mundo dito “real”.

DB: Que percepção grandiosa. Peço licença para compartilhar algo. Certa vez passei por uma experiência de encarar um acidente de perto, e ficar diante da morte, e pensei “o que estou fazendo da minha vida? Estou perdendo tempo com coisas, mestrado, vida acadêmica, elas valem a pena?”. Quando Matheus disse isso eu o entendo, mas creio que a sabedoria está em transitar os mundos. Se uma pessoa faz um doutorado para seguir a carreira acadêmica, pra ser um professor, por exemplo, ele deve dançar essa música, - sem se vender ao sistema, - tendo a clareza de sua percepção da vida! Então, se por um lado o doutorado não tem sentido, por outro tem, pois além de buscarmos uma forma de ‘sustento’ e trabalho, nele encontramos um meio para disseminar nossas visões de mundo e influenciar pessoas, realizar-nos. Além disso, assim como em uma viagem psiconáutica, ao estar num acidente você também vislumbra que o corpo não é tanto, porque dentre as possibilidades de acidente existe a de morrer, então você vislumbra que a vida é mais do que isso!

EF: Sim, essas experiências têm paralelos. Naquele momento do acidente, você limpou instantaneamente seu coração de toda a idiotice que te cerca, e viu o que importa, acontece isso comumente também durante uma experiência com enteógeno, como a que tivemos. A diferença é que mesmo muitas coisas que parecem importantes e que você focaria ao ver um acidente, também perderão o sentido. Eu disse a Matheus: - A vida "ordinária" pode ser mágica, ela é algo simples, e como artistas, precisamos de canais para difundir o que fazemos.
E no fundo, a frustração de Matheus foi a percepção da dificuldade de mudar o mundo que está tão longe do que experienciamos. Mas Matheus, como eu, é um revolucionário do espírito humano. E como todo revolucionário da alma, temos crises de ascetismo. Quando desejamos deixar tudo e irmos pra montanha. Eu tive a coragem de misturar tudo, e eu não tenho medo de falar dessas experiências na academia, pago alto preço por isso: sou tachado de louco, naif, hippie, inocente, e blá, blá, blá. Mas cumpro certas regras necessárias ao túnel de realidade acadêmico e com isso mantenho-me no meio e com a liberdade devida.

DB: Sim, quantas vezes já quis abandonar tudo... Você disse que “uma experiência assim pode ser perigosa para aqueles que tiverem um coração duro, maldoso, ou frustrado”. Gostaria de aproveitar essa deixa para falarmos sobre o “ego”. Penso que uma viagem assim, - para a maior parte das pessoas que convive com sentimentos como ciúmes, raiva e complexos, - seria muito forte. Pois, se por um lado, uma visão do cosmos poderia mostrar o quão ridículo é nutrir estes tipos de sentimentos, por outro, penso que para aqueles que não estejam preparados, poderiam ver crescerem seus demônios interiores. Talvez, a percepção da experiência fique prejudicada por interferência do ego. Ao invés de transcender, a pessoa pode ficar mais aterrorizada? Porque o ego nos machuca tanto?

EF: Porque acreditamos que somos o EGO, essa percepção de individualidade, de unicidade, diferenciação. O ego é o que acreditamos que somos, o fantasma que criamos para nós mesmos. Silenciar o ego é complicado. Como você vai silenciar/matar aquilo que ACREDITA SER VOCÊ, aparentemente é um suicídio. Você não quer, você quer continuar sendo o que acredita ser. Mas quando você tem experiências transcendentes, você percebe que simplesmente o ego é uma fotografia desbotada que mostra um ângulo seu apenas, e você é HOLOGRÁFICO, você é multidimensional, e o tamanho e complexidade dessas múltiplas dimensões é o tamanho do Universo! Mas não é nada fácil. Meu ego está aqui, convivo com ele, e se sofro ainda é só por causa dele. Tenho aprendido lentamente a minimizá-lo, a torná-lo o que ele é, só uma parcela mínima de meu ser, de minha complexidade cósmica. O final da jornada será fazê-lo apagar-se, mas não tenho pressa, sou um aprendiz. Quanto a você, terá uma boa viagem psiconáutica ainda. Você tem um bom coração. Vai doer, vai ser impactante, mas será mágico. Por isso quando chegar o momento: MERGULHE!

DB: E agora, como se sente? Ainda há vestígio da substância em você agindo? E o sabor é como? Amargo, doce?

EF: Os cogumelos foram ingeridos misturados ao suco de uva, absorção bem rápida, em 15 minutos já começou o efeito. Cogumelos desidratados e batidos com suco no liquidificador. Bem, ficou com o gosto de SUCO DE UVA! (risos). O etnobotânico Terence Mackenna dizia poeticamente que os esporos do Psilocybe Cubensis são criaturas de outra galáxia, seres extraterrestres que vieram para nos contar histórias do cosmos! Uma bela imagem poética do cogumelo! Hoje me sinto bem, o efeito da substância passou, mas o efeito que ela causou no meu self não, é PROFUNDO DEMAIS! Estou ainda altamente impactado, sentindo-me estranho, mas alegre e sereno. Estou me sentindo leve e pesado agora, totalmente PARADOXAL, mas é isso. Sinto-me nesse instante como uma pluma e como um saco com toneladas de chumbo!

DB: Como é isso?

EF: Vou tentar expressar, mas certamente será um arremedo. Meu coração está leve, pois vi que todos os complexos e besteiras que acho que fazem parte de mim, não são nada, ele viu mais uma vez que o LOBO É O COSMOS! E ele teve certeza disso, está leve, dançando entre as galáxias que vislumbrei ontem. Mas certos paradigmas anteriores que estão mortos com a experiência são difíceis de deixar ir embora, sinto ainda o peso deles, uma melancolia estranha por estar deixando-os ir embora, livrando-me deles, esse é o peso. Por isso sou leve como uma pluma e pesado como um fardo de chumbo! Sinto até uma "leve dor de cabeça".

DB: Então esse Edgar que estou conversando hoje não é o mesmo de ontem?

EF: Sinceramente, não sei! Eu estou aqui, pareço ser o mesmo. E as atividades triviais como digitar no computador, estar nesse estúdio aqui agora parecem induzir certa normalidade que retorna à noção de percepção ordinária. Isso é uma espécie de vício uterino: a nossa percepção ordinária. Achar que enxergamos a realidade. Por isso uma experiência impactante como a de ontem, com um enteógeno coloca-nos totalmente em xeque em relação à realidade, ou ao que acreditamos ser a realidade.

(Ciberpajé fotografado pela I Sacerdotisa Rose Franco)


DB: Depois de tudo que você viveu nessa viagem, como conseguir manter a visão do todo e dos detalhes, sempre, sem cair nesse vício ordinário?

EF: Eu já experimentei algumas formas poderosas de deslocamento dessa percepção ordinária, cada uma tem sua estrutura e causa aberturas diferentes, a magia sexual é um jogo poderoso de energias, pulsão criativa e equilíbrio interno. A psilocibina é uma implosão de todas as realidades internas, você continua ali, mas toda e qualquer verdade se dilui no instante. Se você acumulava verdades, elas vão implodir e se você tentar sustentá-las poderá sofrer e será fatídico, acredito que venha daí a chamada bad trip. McKenna dizia que o Cogumelo é um formatador da consciência, você a limpa de todas as sujeiras e vírus ordinários, você começa de novo, de certa maneira. Se você se entrega de verdade à experiência, certamente renasce, não é o mesmo, você muda. Mas a mudança pode doer muito, pois ao acordar, o ego ainda está ali e ele vai querer continuar a impor suas noções de realidade e verdade, mesmo depois de vê-las dilaceradas pela experiência transcendente.

DB: Esse choro que você relatou, imagino que não seja nem 1% do que você deve ter sentido, mas achei a "descrição" parecida com o que sinto várias vezes quando provo na pele as ilusões do ego se esvaírem. A dor da mudança. Conte-nos mais dessa dor e desse choro profundo seu.

EF: Sim, perfeito. Foi um choro por isso mesmo, de perceber minha grande inocência, petulância, pois por mais humildade que eu tente cultivar, ainda guardo milhares de pseudo-verdades e pequenos dogmas em meu íntimo. Vê-los desmoronar é doloroso, dá medo, gera tristeza. É difícil explicar, mas você se torna o centro focal do Cosmos e vive eventos de proporções universais naquele momento. Quando eu chorei, a princípio era meu ego, depois fui sumindo e no final eu chorava e ria de êxtase, era como uma explosão mágica, dolorida e maravilhosa. Você se sente um estranho e depois se sente bem por ser esse estranho, diverte-se com isso, de se entregar. Eu tento praticar essa entrega no meu dia a dia, deixar a coisa ser o que “é”, mas não é nada fácil, com a psilocibina isso se torna mais efetivo.
Durante a experiência eu não resisto. Ontem, quando comecei a sentir a implosão de algo que pode parecer idiota: do que eu entendia como plantas, eu resisti um pouco - meu ego no princípio quis dizer racionalmente: - O coqueiro não fala com você, é um alucinógeno agindo no seu cérebro, você está pirado. Minha mente racional disse o que todos os "cientistas” dirão. Então o choro veio no início por resistir a isso, por MEDO! Medo de ver que toda a realidade sobre plantas que eu acreditava conhecer era lixo, lixo puro!

DB: Você disse que a linguagem é limitada para expressar suas visões e o que sente nessas viagens. Você já sentiu essa limitação antes, ao criar suas HQs, desenhos, músicas? A “limitação da linguagem artística” para expressar seu sentir ficou mais comprometida sob o efeito do cogumelo? Fale-nos um pouco dessas percepções.

EF: Sim, o artista deve ser condescendente consigo mesmo, deve se amar. Ou sofrerá muito, a transposição das imagens cósmicas que vislumbro em meus transes artísticos para o papel é sempre um arremedo, nunca tem a força daquilo que imaginei, e nunca terá. Mas esse é o preço pago por qualquer linguagem, a simplificação da complexidade cósmica. Por isso sou muito amoroso comigo mesmo, aprendi a lidar com essa questão de transposição das imagens transcendentes para minha arte e saber que a arte é só uma linguagem, só uma forma falha de tentar captar a realidade. Ela pode ajudar, e acredito na sua capacidade para despertar as pessoas de seu sono do ego. Mas o avançar, além disso, dependerá delas. Eu amo minha arte, eu amo o que faço, eu aceito minhas limitações, por isso me amo. Gostaria de ressaltar que essa entrevista contigo é algo MUITO IMPORTANTE, pois ela captura minhas percepções gerais da experiência ainda sob seu forte impacto!

DB: Agora gostaria de saber como foi a criação do primeiro HQforismo psiconáutico!! (HQforismo é um tipo de HQ criado por Franco, o neologismo foi conceituado por Franco e Danielle Barros, que significa: histórias em quadrinhos + aforismos).

EF: Vamos lá! Danielle Barros - a IV Sacerdotisa (você!) - aceitou a proposta de escrever um poema e me enviar para eu criar uma arte inspirada nele durante a experiência com oCubensis. Danielle enviou o texto poético que eu não li e imprimi em uma folha sulfite e dobrei em quatro partes e deixei junto ao meu material de desenho do lado do colchão no chão. Decidi que iniciaria a tentativa de desenhar durante a experiência com esse exercício criativo. 
Cerca de 30 minutos depois de o enteógeno fazer efeito, eu já estava tendo visões incríveis. Algo muito marcante foi uma imagem de um pássaro, uma pombinha/rolinha enorme, com uma mistura de docilidade e inocência. Essa imagem marcou-me muito, a vi na paisagem esverdeada do quintal, ela ficava de perfil para mim e levantava as asas com graça, de repente ela tornou-se uma espécie de leão alado, ou melhor, um felino alado. Nessa hora decidi que tentaria desenhar, virei-me para o lado e peguei a folha dobrada com o seu poema/aforismo. 
Quando a abri foi um choque! Antes de ler o texto impresso, ela brilhava com muita intensidade, cheguei a cerrar os olhos, tamanha era a luz que vinha do texto. Foi incrível, a poesia estava luminosa, saia LUZ dela, muita luz, até franzi os olhos, quase me cegou! Depois de um minuto observando-a sem decodificar o escrito, eu o li e me emocionei, tive uma sensação boa, forte.

Eis o poema:
"Ao mergulharmos em nossa unidade holográfica,
vislumbramos que somos parte do todo univérsico,
Poderoso e integral.
Nessa visão mágica e única,
Macho e fêmea reinam unidos e inteiros, e compreendem que são Deuses."
(Danielle Barros)

Síntese de muitos dos meus pensamentos e aforismos, o escrito mexeu fortemente comigo. Respirei fundo e peguei a prancheta com uma folha e o pincel. Senti a conexão com a autora dos versos e desenhei uma linha cortando quase que a folha ao meio. O pincel não respondeu bem, a minha perícia estava obviamente prejudicada pela intensidade da viagem transcendente. Ainda desenhei com esforço a cabeça da pomba, figura feminina que tinha visto antes na parte de baixo da folha. Então deixei o pincel e peguei lápis de cor alaranjado e tracei algumas linhas circulares. Troquei para o lápis cor-de-rosa, essas cores brilhavam muito e me “chamaram” para usá-las. Fiz muitos traços com essa cor e deixei-a para pegar a caneta nanquim de ponta fina. Surgiu a imagem de algo que agora me parece um feto, na parte inferior junto da cabeça da pomba e um falo ereto e um peixe na parte superior. Peguei novamente o lápis alaranjado e fiz alguns detalhes. A luminosidade fosforescente do amarelo “chamou-me” e conclui o desenho com ele. Na verdade tive que parar, pois a folha começou a ficar transparente e apareciam imagens por trás dela, era impossível continuar. Dei o trabalho por encerrado, deixei papel, prancheta e lápis ao lado do colchão e voltei novamente meu olhar para o quintal, mergulhando na experiência. Esse foi o primeiro exercício, feito antes da HQ com Matheus Moura, que foi criada por volta das 17h30min, e também antes dos dois HQforismos, que desenhei ao final, ainda com o efeito da substância mais já com domínio melhor de meu traço. Olhando agora para o desenho, vejo que ficou interessante, criando uma conexão curiosa com o poema (Figura 4).


Figura 4 – Arte de Edgar Franco para HQforismo em parceria com Danielle Barros. 

DB: Achei interessante você dizer que saiu uma luz ofuscante do papel, pois quando escrevi a poesia, imaginei muita luz. O desenho tem muita leveza, é cheio de cores, vi tudo o que você viu (o falo, o peixe, o feto, a pomba), e ainda uma borboleta de perfil e a metade de um coração em torno da pomba. Extremamente simbólico! Um honra poder ter sido parte desta experiência com você. Já que entramos no assunto dos HQforismos, nos conte como os outros surgiram e como foi o processo criativo?

EF: Depois da experiência reveladora e assustadora com o coqueiro do jardim, voltei para dentro de casa, Matheus continuava na rede. Peguei a câmera fotográfica e fui para o jardim fotografar o coqueiro, tentar capturar um ínfimo das imagens poderosas que vi, da força das marcas de seu tronco que revelavam sua vida grandiosa. A chuva parou, tirei as fotos ainda sob forte emoção, lágrimas escorriam no meu rosto. Voltei novamente para dentro. Tive o impulso de desenhar algo, peguei a caneta nanquim de ponta fina, o papel e deixei a mão livre seguir o papel, o resultado gráfico foi bom, eu já estava dominando melhor a perícia manual do desenho e saiu um HQforismo, mais uma vez unindo os opostos complementares. Com um curto texto: "Atados ao todo! Todos". Terminei o HQforismo e deite-me no colchão, uma música do Anathema, muito emotiva tocava no som.

A lembrança da experiência com o coqueiro se misturava a imagens vibrantes que via no teto da área de serviço. Comecei a chorar novamente, um choro de êxtase, há anos não chorava tanto. Foi nessa hora que minha esposa, Rose, chegou. Eram 20h00min. Ela me pegou chorando e se assustou. Ao vê-la senti uma emoção muito boa e chorei mais ainda. Tentei explicar o que aconteceu e falei do coqueiro, mas percebi que ela não entendeu nada, mas abraçou-me com carinho. Não entendendo as palavras, mas entendendo meu sentimento. Rose ficou por uns minutos abraçada a mim. Matheus sentou-se na rede e começamos a conversar sobre tudo. O efeito da substância ainda estava ali, mas já menor. Rose foi preparar nosso jantar.

Tive o impulso de pegar o papel de novo e desenhei um HQforismo que gostei muito, ainda sentia o papel brilhar e certas gotas que aparecem no desenho, como lágrimas invertidas, surgiram brilhando no papel e me FIZERAM desenhá-las! O HQforismo destaca um ser animal mítico misterioso, com algo de lagarto, pássaro, humano e planta. Eu gostei muito do resultado visual e poético desse HQforismo. E ao olhar para ele me emociono, pois ele parece me trazer aquele momento e as sensações que eu sentia com força. Tem um sentido profundo para mim. Foi o único trabalho que eu assinei. Os outros, o desenho feito para o texto de Danielle Barros, a HQ com Matheus Moura e o primeiro HQforismo, não tinha assinado. Nesse eu assinei: Edgar Franco & o Esporo. Esse último HQforismo desenhado durante a experiência teve o texto: "Sou o sonho do som de um sonho". Depois de desenhá-lo, Matheus Moura o viu, e continuamos a conversar sobre muitos aspectos de nossa viajem psiconáutica e terminamos comendo um jantar preparado por Rose com patês orgânicos e pães integrais, além de alguns vegetais. No jantar ainda sentia os alimentos com um sabor especial, e até me deitar meus sentidos ainda estavam apurados. (Figura 5).


Figura 5 – Foto do último HQforismo criado por Edgar Franco durante a experiência.

DB: Para finalizar (temporariamente) essa entrevista-conversa, gostaria de perguntar algo que pensei quando reli aquele aforismo que abre esta entrevista. Ao final do aforismo você pergunta, aflitivamente: “quem sou eu?” Essa experiência de alguma forma diluiu ou afetou a ideia que você tem de si, e sua visão de Lobo? Em outras palavras: você escreveria um aforismo sobre quem é você logo depois dessa experiência, uma vez que você vez ou outra escreve sobre sua senda, pensamentos e visão de mundo? Você ainda arriscaria descrever-se, depois de toda essa experiência?

 EF: Cada vez que adentro mais o meu mistério através de múltiplas experiências, observo que a percepção de Rajneesh sobre “a verdade existir nos paradoxos” é algo muito poderoso. Em certa medida o drama cósmico é cheio de paradoxos e contrários, o equilíbrio depende do choque dessas partes aparentemente opostas.

Escuridão e luz tornaram-se paradoxais para os dogmas que pregam a negação da sombra do ser em detrimento de uma luz absoluta, uma bondade sem precedentes. E o final disso é sempre doença e perversão, todos os dogmas criam doentes espirituais, pois obrigam a negarmos aspectos de nosso ser. Ao viver a experiência, eu revi o LOBO, ele estava ali, ele apareceu em imagens inclusive, o seu impacto simbólica para mim: o selvagem que deseja com força, mas controla o desejo à sua vontade, o que é violento e justo, mas nunca cruel. Essa é a essência do LOBO que assumi para mim, ela está aqui, e eu a vislumbrei. Mas durante a viagem psiconáutica, o LOBO se diluiu em inúmeras outras esferas, tornou-se claramente o que ele é: um aspecto ínfimo da complexidade de meu ser que se choca com outros aspectos paradoxais. Eu senti em um momento certa compaixão tão profunda, tão visceral, que ela me assustou e foi uma compaixão estranha, pois ela se misturava com admiração e êxtase, isso aconteceu quando experienciei em mim a vida do coqueiro do jardim, quando ele falou comigo, quando sua hiperestrutura cósmica cruzou e interconectou-se ao meu eu interior e eu tornei-me o “Coqueiro” de meu jardim e vivi o drama cósmico dele, a saga universal que ele vive. A beleza incomensurável de seu crescimento enfrentando as intempéries, a força dos ventos, as agressões físicas dos animais, incluindo o homem. E ele continua imponente, tem orgulho de ser o que é e de estar ali em silêncio representando o grande drama cósmico da vida, gerando frutos.



Quando eu vi em minha alma sua luta, como ela tem sido muito mais difícil e árdua do que a minha, a princípio eu me compadeci, tive pena, mas continuei ali adentrando os seus mistérios. De repente senti uma admiração profunda e veio o choro, um choro paradoxal, de compaixão e admiração, de perceber como fui privilegiado pelo universo, como tenho uma bela vida, mais serena do que a dele.

Mas ao mesmo tempo eu vi que eu também sou o coqueiro (Figura 6), mais um paradoxo, eu percebendo meu ego individual, mas olhando para ele e sendo o coqueiro, e depois fui tocado por uma planta que me falou que eu, meu ego, nunca tinha olhado para ela. Mas ela não falou isso com tristeza, ela só me avisou que existia, sorrindo, e eu chorei mais ainda, chorei com a força de uma tempestade, pois chovia, minhas lágrimas se misturava com a chuva. Como indivíduo imaginei quantos seres devo ter ignorado, sem notar que são partes de mim.

Senti uma emoção muito profunda e no meu choro, enquanto indivíduo, pedi perdão a todos os seres cósmicos que eventualmente ignorei. Reconciliei-me com eles. E recebi uma resposta, como se fosse uma grande carícia universal. Senti um toque que de repente fez meu corpo flutuar, em breves instantes eu me vi no ar ao lado do coqueiro. Estava flutuando de verdade e chorei mais ainda, violentamente, mas dessa vez um choro de êxtase, de liberdade, de sentir-me totalmente acolhido pelo COSMOS! O universo que sou eu teve compaixão infinita pelo meu pequeno ego, parte ínfima de minha grandeza! Então quando digo que O LOBO É O COSMOS, sim ele é; mas perceba que o LOBO em síntese é o Cosmos, pois apesar de ser uma das facetas do Cosmos, ele também contém em si todo o Cosmos, mesmo que eventualmente ignore isso. Então na verdade eu não SEI QUEM EU SOU. SÓ SEI QUE SOU.

Figura 6 – Foto do Coqueiro feita por Edgar Franco durante a experiência.

DB: LINDO! Queria ter estado aí! Observando vocês durante a viagem, anotando tudo, descrevendo o que vocês faziam, pois você relata suas percepções, já pensou em confrontar com anotações de um observador externo? Precisando de uma ajuda, estou aqui! Agradeço imensamente a honra de te conhecer um pouco mais, pela coragem e generosidade em expor suas experiências de vida e de viajante psiconáutico a todos/as os/as leitores/as!

EF: Eu que agradeço a oportunidade de dividir contigo e com os que se interessarem essa experiência tão valiosa. Sim, a idéia de um observador externo é excelente, me fez lembrar os experimentos de Aldous Huxley com a mescalina, vamos conversar sobre isso. Abraço afetuoso do Ciberpajé.



Entrevista concedida a Danielle Barros [Pesquisadora doutoranda da Fiocruz (RJ)] no dia 12/02/2014 e originalmente publicada em Blog Tradução Reversa

FONTE
http://tokadirato.blogspot.com.br/2014/03/entrevista-com-o-ciberpaje-viagem.html