segunda-feira, 30 de junho de 2014

Eu, pós Posthuman Tantra - Resenha do show por Danielle Barros (IV Sacerdotisa) ilustrada com arte de Jorge Del Bianco

“Eu, pós-Posthuman Tantra”
Pela IV Sacerdotisa Danielle Barros

Performance do Posthuman Tantra no “VII Seminário Nacional de Pesquisa em Arte e Cultura Visual FAV/UFG”, Goiânia, 5 de junho de 2014

Inicio aqui meu relato/resenha, com o desafio de descrever o que senti ao presenciar a performance do Posthuman Tantra. Eu pesquiso a obra do Ciberpajé desde 2012, ajudo a divulgar sua arte, inclusive as apresentações do Poshtuman Tantra e a página da banda no Facebook. Essa aproximação com sua obra e ideário me valeu o título, outorgado por ele, de IV Sacerdotisa da “Aurora Pós-humana” – seu universo ficcional transmídia. O Ciberpajé é o nome de renascimento de Edgar Franco, artista transmídia, pós-doutor em arte e tecnociência pela UnB, doutor em artes pela USP, mestre em multimeios pela Unicamp e professor permanente do Programa de Doutorado em Arte e Cultura Visual da FAV/UFG. Recentemente fui convidada a escrever uma matéria sobre os 10 anos da banda para uma revista online especializada em música alternativa e também realizar uma entrevista exclusiva com o Ciberpajé sobre a trajetória do Posthuman Tantra. Também fui ampla divulgadora do triste episódio da censura à performance da banda num evento internacional acadêmico na Unievangélica (Anápolis/GO), em 2013. Mesmo participando ativamente de tudo isso, por incrível que possa parecer, ainda não tinha assistido a nenhuma performance da banda, conhecia partes delas apenas por fotos e vídeos! Sim, e muitos se surpreenderam quando revelei durante o “VII Seminário Nacional de Pesquisa em Arte e Cultura Visual”, na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (FAV/UFG) de que aquela seria a primeira vez que finalmente eu teria a chance de ver ao vivo o Posthuman Tantra. A banda, em suas performances tem o grupo formado pelo Ciberpajé Edgar Franco (musicista e performer), I Sacerdotisa Rose Franco (musicista e performer), Luiz Fers (Performer e Figurinista) e Lucas Dal Berto (VJ).
 

Antes de começar o relato propriamente dito é necessário descrever a atmosfera, o contexto que me trouxe até aquele instante. Já sai da Bahia sabendo: vou a um seminário acadêmico de pesquisa e lá verei pela primeira vez o Posthuman Tantra! Apesar de toda minha ansiedade me esforcei para não criar muita expectativa. O Ciberpajé me alertou que o espaço da apresentação não seria o “ideal” em termos de acomodação, iluminação e som, mas “e daí?”, eu pensei, ainda que fosse uma apresentação só pra mim e na circunstância que fosse, já seria excelente. E assim eu fui, embarquei de coração aberto para a mensagem que o Posthuman Tantra traria pra mim.
Arte de Jorge Del Bianco
 O grande dia: Já fui trajada sob a influência do Posthuman Tantra, corpete, roupa preta, maquiagem, acessórios, tudo no clima, na roupa e no espírito. Chegando à UFG, no dia da apresentação, cartazes pelos corredores ouvi burburinhos como: “ - o professor Edgar e seus orientandos já estão lá arrumando tudo, eu bem que queria participar dessa banda”. No banheiro ouvi duas mulheres dançando em frente ao espelho e cantando: “- Hoje vamos ver Sexy Tantra, Sexy Tantra!! uhuhu”. A esta altura é difícil conter certa expectativa. Na realidade, o que deu para perceber, é que o Ciberpajé é uma “lenda viva” no campus, e ainda que seja tomado como uma figura estranha, controversa e divertida; dentre os comentários que ouvi de passagem, percebi que as pessoas tem curiosidade e admiração, um brilho nos olhos ao falar sobre sua arte! E se há quem não curta o trabalho dele, pelo menos aos meus ouvidos de etnógrafa-amadora não chegou...

Apresentei meu trabalho no evento e só restava-me aguardar chegar a noite e ver a tão esperada apresentação! Enquanto assistia outras intervenções artísticas, de repente cruzo com um Ciberpajé de mais de 2 metros de altura no corredor!!! Ele usava uma bota imensa, parte de seu figurino produzido pelo figurinista da banda Luiz Fers. Mesmo já tendo visto fotos, ali fiquei chocada ao ver de perto a indumentária! A apresentação estava marcada para 19h, e para instigar e convidar o público, o Ciberpajé passeou com essas botas pelos corredores da Faculdade de Artes Visuais convocando as pessoas, era o que faltava para começar. Chegou a hora e seguimos para a sala. As pessoas foram chegando aos montes e iam se acomodando no chão, a sala ficou lotada. Entre amigos, conhecidos e estranhos fomos nos acomodando, trocando olhares cúmplices entre pessoas que guardavam a mesma expectativa.


Arte de Jorge Del Bianco
Com a iluminação sombria e a indumentária dos integrantes meus sentidos já estavam aguçados. A banda ao vivo, nessa apresentação, foi composta pelo Ciberpajé (direção, criação, música, vídeos e performance), I Sacerdotisa da Aurora Pós-humana Rose Franco (musicista e performer), Luiz Fers (figurinista e performer), Lucas Dal Berto (VJ) e Amanda Caroline Darc’Kness (performer). O Ciberpajé inicia então a apresentação, e após o primeiro ato, abre cada um dos outros atos falando um pouco do conceito estético-filosófico proposto. Comentarei algumas impressões sobre cada ato dessa performance específica do Posthuman Tantra, intitulada “Sex Bot Mantra”. Abrindo minhas impressões sobre cada ato acrescento uma “epígrafe” com aforismos do Ciberpajé – do livro com seus aforismos que sou a organizadora. Essa resenha foi inteiramente ilustrada por artes do talentoso Jorge Del Bianco, desenhos realizados durante a performance da banda nessa noite memorável:
 
Arte de Jorge Del Bianco
Ato I - Biotech Antenna (Antena Biotecnológica)

“O Ciberpajé usa suas antenas cósmicas para conectar-se à essência do universo e criar em parceria com ela, gerando seres ficcionais e mundos mágicos, ampliando a empatia e a tolerância, cultivando o amor incondicional sob vontade.”
(Ciberpajé)

O ato abre com um som estridente, como que convidando ao despertar, um som que me incomodou, um ruído aos meus ouvidos mal acostumados e adestrados a ouvir “mais do mesmo”. Neste ato senti-me como que atravessando a dimensão ordinária para mergulhar no mundo da Aurora Pós-Humana, e, através da arte fabulosa projetada na tela, e da transmutação transumana de Franco com uma indumentária e máscara assustadoras, eu mergulhei na cosmogonia cósmica do Ciberpajé, com cores, seres, sons, cheiros, sensações sinestésicas peculiares. A partir dali eu já estava fisgada e temerosa ao saltar neste abismo, mas já não tinha mais retorno...

Arte de Jorge Del Bianco
Ato II – Ciberpajelança

“Os signos da natureza nos falam de verdades essenciais esquecidas pelo processo imbecilizante chamado cultura, processo que nos afastou de nossa identidade animal, nos apartou do Cosmos, nos desconectou de Gaia.”
(Ciberpajé)

Fui transportada para a floresta, me senti num ritual de cura xamâmica, cura de corpo e espírito. Os toques tribais, os passos assustadores e fortes de Luiz Fers, o som do chocalho, a voz grave do Ciberpajé, seu porte majestoso e misterioso e o entoar de mantras imemoriais fizeram emergir em mim uma sensação de estranha familiaridade diante daquela cena, que certamente de alguma forma compõe o inconsciente coletivo da humanidade, diria Jung. Mais uma vez, como no primeiro ato, os urros do Ciberpajé estavam despertando algo em mim, me conduzindo por essas dimensões de realidades cosmogônica e validada. Eu estava em transe na Ciberpajelança! Os tentáculos vislumbrados no telão nas costas do performer - em um original efeito de realidade aumentada - tornaram o Ciberpajé uma de suas criaturas pós-humanas. Os limites dissolvem-se, e todas as realidades se encontram em um mesmo ritual sagrado.

Arte de Jorge Del Bianco
Ato III - Transhuman Werewolf`s Mutation (A Mutação do Lobisomem Transhumano)

“O Lobo caminha solitário, abomina mestres, senhores, mentores e deuses. O Lobo sabe que é o espelho do Cosmos. Ele sabe que para ser integral é preciso ser só, e para realmente conectar-se a alguém ele deve bastar-se a si mesmo. A solidão do Lobo é sua canção universal, bela por ser ao mesmo tempo serena e selvagem.”
(Ciberpajé)

O som me transporta para uma era longínqua, numa terra devastada ou em uma floresta frondosa, não sei. Talvez num vazio cósmico de um céu estrelado... os acordes da canção vagueiam por meus silêncios, meus medos, memórias, implode tudo e traz à tona aquele momento presente. Eu ali, desta vez teletransportada para o único lugar que existe, o AGORA. A representação do animal selvagem, a música aumentando o ritmo, assim o Lobo surge na tela, está consumada a transmutação, agora estamos dividindo espaço com lobos pós-humanos. E a animalidade de cada um é convocada a vir à tona!

Sem me dar conta, nesse momento eu já não fotografava mais, guardei a máquina para experienciar aqueles momentos. Compreendi que qualquer tentativa de apreender aqueles momentos seria inócua, pois não era possível captar uma experiência sinestésica e fulminante como me tornar Posthuman Tantra, integrar-me ao ato naquele momento!

Gostaria de destacar que o show tem uma energia que segue um crescendo continuo, as entonações parecem que penetravam minha alma, parecem me “desintonizar” da frequência em que estava, conectando-me a uma dimensão distinta. Por diversas vezes pude perceber meus batimentos cardíacos se acelerarem, e a cada ato, vivia a sensação recorrente de estar sendo surpreendida. A atmosfera das músicas e os arranjos, algo diferente de tudo que já ouvi. Em alguns momentos me lembrei da estética sombria e do suspense da série “The Twilight Zone”.
Arte de Jorge Del Bianco
 Ato IV – Os Mistérios Insondáveis (Das Falsas Coincidências).

Com um lance de seus olhos você organiza o mundo e ordena intuitivamente o aparente caos. 
Existe em sua essência corrompida pela cultura humana a percepção implícita da ordem fluida do Universo. 
Reanimalize-se! 
(Ciberpajé)

Nessa música fiquei pensando nas sincronicidades da vida, em como fui parar ali, naquele momento. Fiquei lembrando como conheci o Ciberpajé e seu ideário, e os rumos da minha vida nos últimos anos. Pensei na magia de cada escolha e suas consequências, de como cada acontecimento - por mais “trivial” que possa parecer - é capaz de redirecionar nossos caminhos. Em como uma oportunidade simples, um telefone, um ônibus, ou o atravessar de uma rua pode mudar nosso curso a todo instante, criando novas possibilidades, proporcionando novas pessoas a conhecer, distintas vidas a viver. Vislumbrei o quanto somos complexos, múltiplos, e percebi a inexistência de um tempo “linear”. E por fim pensei em como essas “coincidências”. que parecem “ao acaso”, são tão perfeitas.
 
Arte de Jorge Del Bianco
Ato V - The Little Bob`s New Toy: Sexual initiation with a Multifunctional Robot (O Novo Brinquedinho de Bob: Iniciação sexual com um robô multifuncional).

“Quando faz a sua ciberpajelança,
O Lobo sente o cheiro da Lua,
E fricciona com volúpia o clitóris do cosmos.”
(Ciberpajé)

Esta foi uma das faixas que mais me surpreendeu, e não foi à toa, a censura ao Posthuman Tantra aconteceu durante esse ato! Vou explicar melhor. Quem me conhece sabe que sou uma pessoa tranquila, não tenho tantos tabus e não sou “pudica”, longe disso, mas confesso que diante da apresentação deste ato fiquei chocada! É uma performance muito sensual, excitante e vibrante. O Ciberpajé deixa sua virilidade aflorar sem amarras, não é por acaso que o ato em que se transmuta em Lobo pós-humano se dá antes desta faixa, aqui ele já é o LOBO SELVAGEM, e é mesmo! Vale destacar que a selvageria que Franco traz não é a difundida pela mídia, uma selvageria como “crueldade” e sim uma selvageria animal, que, como ele diz, pode ser violenta, mas nunca cruel. Nesta faixa vemos uma amostra de sua selvageria sexual, ele simula a penetração, ele grita, ele urra, ele “penetra”, ele rompe, é uma catarse artística sexual!
Mas como eu disse, num primeiro momento eu me impressionei, e esse estranhamento foi paradoxal. Por um lado achei “incômodo” ver o Ciberpajé fazendo aquelas insinuações sexuais - que de certa forma, a meu ver, abriram sua intimidade - como se estivesse masturbando-se em público -, de modo que a música que nem era tão longa, pareceu-me uma eternidade, e à medida que ele ia intensificando o ato sexual com o microfone servindo de falo, eu pensava “Gente, quanto tempo ele ficará fazendo isso?” Mas, por outro lado, meu espírito vislumbrava aquele contexto, uma coisa LOUCA e insólita, e eu refletia: “Quando eu imaginaria, que em uma Universidade Federal, local emblemático do ensino engessado em seus dogmas erigidos com repetições de teorias inócuas estrangeiras, um lugar de egos insuflados, quando eu sonharia em ver aquele ato de iconoclastia selvagem? Realizado por alguém que, mais do que falar, VIVE aquilo que escreve em seus aforismos e cria em sua arte, quando eu imaginaria presenciar uma apresentação iconoclasta dessa em uma universidade?” Então, o que no começo foi um choque - por mais que eu já conhecesse o ato por vídeos e fotos-, algo que me fez rir por estar bastante surpreendida... Naquele instante se converteu em pura admiração e uma das maiores lições que tive na vida, a lição de que devemos ter CORAGEM DE SER QUEM SOMOS.
O Ciberpajé, que é um professor doutor, alguém que como ele diz “pediu todas as bênçãos acadêmicas que a universidade exige para ser alguém”, agora se dá a própria benção e o direito de ser quem ele é. Sem se preocupar com um “nome a zelar” e nem com o que pensarão dele e sim ser quem é sem estar prejudicando ninguém, ser sua arte! E devo acrescentar minha admiração por sua esposa, Rose Franco, ao estar ao lado dele no Posthuman Tantra há tantos anos e em tantas situações, como no dia do ato de censura. Ela é também admirável pela coragem de seguir e ser Posthuman Tantra.
Dei-me conta ali que é muito mais fácil ser o que os outros querem, mas ser quem se é, é complexo, dolorido e difícil, porém é o único caminho verdadeiro e de valor inestimável.
 
Arte de Jorge Del Bianco
Ato VI - Tênue Esfera Azul

“Fita o Sol na manhã esplendorosa, pensa nas inúmeras gerações humanas que ele viu tornarem-se pó, abra seus braços e mergulhe completamente na vida, esse singelo e tênue presente cósmico!”
(Ciberpajé)

Nesse ato eu me emocionei muito. Foi uma “hecatombe” interna devastadora, me senti no etéreo espacial. O Ciberpajé, em contraste com o ato anterior, chega com a doçura suave de uma rosa em mãos, anunciando a efemeridade da vida nessa tênue esfera azul. Nessa hora eu percebi o quanto fui tacanha ao reprimir inicialmente meu ímpeto animal, ao negar a primeira parte do ato performático anterior e pude vislumbrar o quanto sou/somos muito mais do que este corpo terrestre, somos irmãos dividindo essa mesma jornada: VIDA.
Pude compreender nossa eternidade e finitude. Senti-me pequenina e grandiosa. Lembrei-me que foi este ato que o Ciberpajé dedicou ao saudoso amigo Elydio dos Santos Neto, durante o show do lançamento do álbum em quadrinhos Biocyberdrama Saga no Centro Cultural UFG em 2013, performance e lançamento que eu ajudei a divulgar. E lembrei-me o quanto devemos simplesmente VIVER e AMAR! E como o Ciberpajé fez muito bem durante todos os atos, ele contrasta doçura e selvageria ao longo das canções, com urros e entonações leves, como quem nos desperta do nosso estado de inércia, mas ao mesmo tempo exalta a serenidade necessária para viver o agora.
Como a letra desse ato diz, estamos ligados pelo mesmo tempo, mesma época de vivência na Terra. Lembro-me o quanto me sinto honrada de dividir essa época com pessoas tão especiais e de estar ali naquela performance. Aquele toque da música, como se fosse uma música que minha alma (re) conhecia, causou-me incômodo, parecia que eu não tinha corpo, que existia um “vazio”. Não chegava a ser uma sensação de “morte”, mas diria “um ser sem corpo”, como se eu me percebesse muito além disso tudo. Viajei pelo espaço, na viagem das imagens das artes projetadas no vídeo com o qual o Ciberpajé interagia... Parecia como se eu tivesse sentido, através daquela música e imagens, uma ínfima consciência da minha grandeza espiritual e de que tudo (material) se acabará, e isso me deu certo temor.
Arte de Jorge Del Bianco
Ato VII - Penetrating The Virgin Bioport (Penetrando a Bioporta Virgem).

“Tu pregas inúmeras regras,
eu as burlo dentro de tuas pregas.”
(Ciberpajé)

Nessa me senti transportada pros quadrinhos de Edgar Franco! Vi-me na “Aurora Pós-humana”, como se estivesse presenciando as criaturas em sua cópula, em suas relações cotidianas e formas de lidar umas com as outras em seu universo ficcional. Presenciei um bate-estaca pós humano, também muito sensual, e bem “didático”. O Ciberpajé penetrando a bioporta e um fluído de conexão luminoso que flui de uma criatura a outra. Devo confessar que precisarei ver o show muitas vezes para apreender a profusão de elementos que desenrolam-se simultaneamente: A performance de cada membro do grupo; fruir as obras projetadas; atentar para as mágicas eletrônicas utilizadas no show, bem como outros recursos; além de ter a liberdade de simplesmente divagar mergulhando no conceito filosófico que a banda traz que, misturados em nosso repertório de vida, nos causa um impacto estranho e profundo.
Arte de Jorge Del Bianco
 Ato VIII - O Selvagem.

“Foder como um animal,
Amar como um santo,
Brincar como um menino,
Viver como um Lobo”
(Ciberpajé)

Esta é um mantra “ser leve, selvagem e brincalhão”, como os animais que estão sempre vivos e focados no agora. Cada faixa é uma lição de sabedoria. Essa para mim foi um das mais fortes, e ao recitar a letra, o Ciberpajé brinca com a intensidade, com a leveza e os gritos, como os acordes de uma vida, repleta de altos e baixos, êxtases e abismos.

Ato IX - Tema o Homem, Ame o Lobo.

“Minha fêmea, sei que você quer o Lobo, apesar do homem.
Eu sou o Lobo que se esqueceu do homem!”
(Ciberpajé)

Este ato completamente iconoclasta traz o conceito de que se pode confiar plenamente no ser selvagem ao passo que na civilidade do homem, não. O ato fecha o show com chave de ouro. Uma faixa em que o Ciberpajé contracena com o vídeo recitando a música enquanto ele é exibido. A animação exclusiva, criada pelo artista George Chiavegato em parceria com o Ciberpajé, é muito excitante e o final dela, surpreendente. Ao mesmo tempo, a dupla de performers Luiz Fers e Amanda Caroline complementam a atmosfera da animação com uma performance ousada.
Vale destacar que a performance de todos os integrantes da banda é fruto de trabalho intenso. Muitos pensam que aquelas performances loucas são feitas “no improviso”, ou que o Posthuman Tantra anarquiza em seus atos, mas a banda faz essa brincadeira que é séria e sei que eles chegam a ensaiar por mais de 4 horas cerca de 2 vezes por semana, testando som, equipamentos, iluminação, coreografias, e tantas outras coisas para que tudo saia perfeito.

Arte de Jorge Del Bianco
Não posso deixar aqui de estabelecer um paralelo entre as performances do Posthuman Tantra e os atos poéticos de psicomagia elaborados por Jodorowsky, atos que são construções de realidades através da arte, pelo mago-artista. E já finalizando essa resenha-viagem, devo dizer que o Posthuman Tantra é uma banda, que assim como outros desdobramentos transmídia da Aurora Pós-Humana, tem em sua essência uma verve poético-filosófica que nasce no ideário cósmico e iconoclasta desse ser incrível que é o Ciberpajé!
Uma honra estar lá!
Em minha busca por transcendência, ainda não sei quem sou (e nem sei se saberei um dia), mas com certeza aquele que se deixa envolver pelo show não sai o mesmo que quando entrou. E esta é a resenha do meu eu “pós” Posthuman Tantra, uma resenha que tem a pretensão de ser mais uma expansão da Aurora Pós-Humana ilustrada fabulosamente com a arte do Jorge Del Bianco em sua sensível e talentosa percepção, reunindo aqui o meu olhar, e o dele, juntos neste ensaio-resenha. O olhar de pessoas que têm um forte afeto por essa banda e os seres que a compõem.
Espero viver outras experiências de ser e estar com o Posthuman Tantra.
Vida longa à arte genuína!

Danielle Barros, a IV Sacerdotisa da Aurora Pós-humana, é doutoranda pela Fiocruz RJ.