quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Ciberpajé concede entrevista iconoclasta à Revista ARCO da Universidade Federal de Santa Maria

Foi publicada a matéria com entrevista concedida pelo Ciberpajé Edgar Franco ao jornalista Germano Molardi para Revista ARCO, da Universidade Federal de Santa Maria. A revista ARCO é uma publicação voltada ao jornalismo científico e cultural, e possui versão impressa e digital. Na entrevista, o Ciberpajé fala sobre vida e criação, suas críticas ao mundo acadêmico, ao produtivismo, falando sobre suas influências artísticas e seu ideário. Conforme trecho introdutório:

"Sua forma de viver, como diz, tem causado furor nos espaços acadêmicos onde convive. A sua visão a respeito da arte e da Academia também. A Revista Arco conversou com ele para saber mais sobre a sua trajetória, sobre o personagem que criou e que a ele foi incorporado e sobre as suas produções artísticas. " 

Leia alguns trechos, com as falas do Ciberpajé:

(...) Apesar de uma pseudoaparente maior diversidade e tolerância ao diferente que é apregoada midiaticamente como algo que existe, sabemos que o mundo tem caminhado para o inverso disso. Nessa vida, não me lembro de experienciar um período em que a cultura humana estivesse tão fragmentada e dividida em inúmeros grupelhos que tornam suas teses e leis em dogmas e passam a odiar todos os demais. São milhares de facções e subfacções culturais vomitando seu ódio a tudo que não é afinado com eles. Toda essa fragmentação tem sido insistentemente incentivada pelos governos, marionetes das multinacionais, utilizando assim o velho e muito eficaz princípio da política romana chamado "divide et impera", dividir para conquistar. Ao incentivarem o fortalecimento de milhares de grupelhos de ideologias antagônicas, os donos do poder impedem que haja a união entre as pessoas. Por isso eu me declaro livre de todos os ismos, liberto de todo e qualquer dogma, pronto para me insurgir contra os verdadeiros vilões, os monstros no poder (Ciberpajé)".

"O mercantilismo e produtivismo invadiu a universidade de maneira irreversível; pesquisadores, que deveriam ser sonhadores utópicos, criadores inspirados, tornaram-se ratos predadores buscando metas como executivos pressionados por um sistema cada vez mais predatório que incentiva não a conexão entre os pesquisadores, e sim a extrema competitividade. Programas de pós-graduação vão se tornando arenas de guerra velada, em que as pessoas se odeiam e buscam ultrapassar a pontuação de seus adversários, já que tudo é uma questão de números, uma corrida desenfreada a lugar nenhum, e os jovens estudantes que deveriam ser inspirados são negativamente influenciados. As parcas e quase inexistentes ações criadoras e transformadoras vindas das universidades são fruto de iniciativas isoladas de alguns seres especiais (Ciberpajé)."

"Outra questão premente das tais “ciências humanas” é a teoria que sobrepuja a experiência, os doutos ratos acadêmicos pautam sua torpe visão de mundo nas experiências dos outros, elegem autores como semideuses e se tornam papagaios de pirata reproduzindo teorias alheias como modelos de vida e análise da realidade. A teoria jamais sobrepuja a experiência, a teoria é um fantasma, uma ilusão que é sempre idealizada, ela indubitavelmente nasce como fruto de uma experiência particular. Mesmo a física hoje admite que o observador interfere naquilo que observa, modificando o fenômeno. Recuso-me a ler qualquer coisa que venha de alguém que coloca a teoria em primeiro plano e rejeita a experiência. Viver é experienciar, a teoria é o território dos idiotas e medrosos. O reinado absoluto do produtivismo, do mercantilismo, e da teoria em detrimento da experiência na academia é o atestado claro de que a universidade faliu, é uma instituição em estágio de total decadência rumo a um fim necessário (Ciberpajé)."

"(...) estou na universidade pelos alunos, pois encontro constantemente jovens que ainda têm a chama necessária para a autotransformação. Talvez, eu consiga atiçar um pouco essa chama e é animador conviver com essas mentes em ebulição ainda não formatadas, mas tenho consciência do meu papel irrisório dentro de uma estrutura onde reinam os valores já declarados aqui: a produtividade em detrimento do respeito e amorosidade, o mercantilismo a qualquer custo, e a teoria inócua sobrepujando a experiência. Eu não tenho esperança em um mundo melhor. Não cultivo sentimentos em relação ao que não posso mudar. O único mundo que sou capaz de transformar é o meu, todo o resto é ilusão. A transformação do mundo lá fora é consequência da transmutação interior. Enterro todas as esperanças e invisto no agora, na profunda transformação de mim mesmo, através da modificação contínua de minha realidade, experimentando minha serenidade cultivada no olho da tempestade (Ciberpajé)."


 Fotos: Rafael Happke
Captura de tela da entrevista publicada no site da Revista Arco/UFSM.