quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Obra do Ciberpajé exposta no Museu Nacional discute a obsolescência programada e a devastação do cerrado

Ciberpajé e sua obra "La Vero" exposta no Museu Nacional da República, em Brasília

Em 2009 o Ciberpajé trancou um celular em uma caixa com 10 cadeados para criticar o culto à telefonia móvel e a obra Immobile Art, exposta no MIS-São Paulo, foi destaque em matéria na Folha de São Paulo (veja vídeo aqui). Agora é a vez de um disquete ser também preso em uma caixa mas objetivando refletir sobre a obsolescência programa e a devastação do cerrado, na nova instalação interativa "La Vero". A obra está exposta no Museu Nacional da República, em Brasília, no contexto da exposição EmMeio#8, que vai de 4 a 30 de outubro de 2016. A mostra de arte e tecnologia tem como curadoras as artistas e pesquisadoras Tânia Fraga e Malu Fragoso.

 "La Vero" na exposição EmMeio#8, Museu Nacional da Rebública, Brasília

 "La Vero" na exposição EmMeio#8, Museu Nacional da Rebública, Brasília

"La Vero" na exposição EmMeio#8, Museu Nacional da Rebública, Brasília

"La Vero" reflete sobre a obsolescência programada dos suportes de armazenamento de dados, tornando milhares de acervos inacessíveis, gerando lixo tecnológico e altos custos para a natureza. Isso contribui para a destruição dos biomas globais na busca por fontes de energia para sustentar o hiperconsumo. Nos últimos 20 anos os dispositivos de suporte de dados magnéticos K7, videocassete (VHS), disquete (floppy-disk) de 5,24/3,5 polegadas e zip drive tornaram-se obsoletos. Cada dia é mais difícil encontrar os drivers/aparelhos que permitam sua leitura, eles e suas mídias tornaram-se lixo sem destinação certa. A “informação” rende-se ao consumo, ele dita as regras e utiliza-se do discurso da “novidade tecnológica”.
VHS, Disquete de 3,5 polegadas, K7 e disquete de Zip Drive: suportes obsoletos utilizados para armazenar os dados da obra

 Disquete de Zip Drive, fita VHS e fita K7 antes de serem enterrados respectivamente em um pasto de criação de gado no estado brasileiro de Goiás; em uma plantação de cana no estado de Minas Gerais, e em uma plantação de soja transgênica no estado de Mato Grosso, principais áreas do bioma brasileiro Cerrado

Diante disso, como destaca o biólogo James Lovelock, a biosfera vive um processo de falência. “La Vero” utiliza-se de 4 suportes obsoletos de informação para denunciar a obsolescência programada e seus custos para a natureza, focando na destruição gradativa do bioma brasileiro Cerrado perpetrada pelas invasivas plantações de cana visando a produção de biodiesel, pelas horripilantes plantações de soja transgênica, e também pela criação extensiva de gado.

No museu de arte, dentro de uma caixa de acrílico, trancado com 10 cadeados, um disquete é colocado à venda para qualquer interessado que se disponha a pagar o valor de €666,00 para conhecer a verdade, “La Vero”, em esperanto. No disquete está gravada a imagem de um QRcode que leva às coordenadas geográficas e  um mapa em esperanto de onde se encontra enterrado outro disquete de zip drive – em um pasto de criação de gado no estado de Goiás/Brasil. Outro QRcode gravado como imagem no zip drive levará às coordenadas de uma fita VHS e esta a uma fita K7 enterradas em plantações de cana e de soja nos estados de Minas Gerais e Mato Grosso. A fita VHS contém a imagem filmada de outro QRcode que leva às coordenadas geográficas de onde a fita K7 foi enterrada, ela traz uma gravação de voz em esperanto que aponta as coordenadas geográficas secretas que demarcam o ouroboros do consumo em detrimento da informação, o segredo final.

 "La Vero" na exposição EmMeio#8, Museu Nacional da Rebública, Brasília

 "La Vero" na exposição EmMeio#8, Museu Nacional da Rebública, Brasília

 "La Vero" na exposição EmMeio#8, Museu Nacional da Rebública, Brasília

"La Vero" na exposição EmMeio#8, Museu Nacional da Rebública, Brasília

O valor cobrado pelo disquete é uma forma de ironizar o que a humanidade, representada pelos líderes globais - os donos das megacorporações multinacionais indutoras de hiperconsumo - têm feito ao planeta, depredando-o impiedosamente em busca do lucro desmedido. Assim, o número icônico 666, que simboliza a besta apocalíptica bíblica, refere-se na verdade à espécie humana que está cavando sua própria sepultura ao eleger o hiperconsumo, o lucro e a obsolescência programada como formas de atuar em Gaia.

Clique no QRCode para saber mais, e veja uma descrição detalhada no blog da obra:

 La Vero